Trintão e Textão

Texto da amiga Nathali Urbano ak ig @bruxonaprendiz

Já li alguns textos sobre fazer 30 ou 50 na internet, alguns deles me fizeram ser uma pessoa muito mais segura com o sentimento de envelhecer, por isso pensei: E se eu der um depoimento positivo sobre envelhecer, apesar das circunstâncias de fim de mundo? Então aqui estou eu pra falar um pouco da minha jornada até os trintão.


Trinta anos é uma data que poderia acompanhar um festão, afinal nem tanto tempo atrás ter trinta já era ser praticamente idoso. Mas assim como todas as pessoas que levam a quarentena a sério, a maioria das pessoas nascidas no ano 90 trintou/vai trintar em casa sozinha ou com um grupo muito reduzido de pessoas. A gente de 90 chegou nesse mundo no fim da festa, tanto do século quanto do milênio, tudo isso já lidando com os impactos absurdos do uso inconsequente de recursos naturais, dos problemas sociais jamais resolvidos e fomos deste fim de festa sem fim, ressaqueados, diretamente para a era digital. No lugar de festão, vamos de textão: 

Uma das coisas sobre mim que dizia bastante que tipo de adulto eu iria me tornar, é que quando criança, eu tinha umas crises de choro existenciais: Basicamente porque não queria crescer, mas também porque não queria morrer e renascer em outra família – Minha família é católica e não faço idéia de onde tirei isso de achar que eu ia ter que passar pelo calvário da vida mais de uma vez -. Talvez por esse medo de crescer e fatalmente morrer, eu sempre me emocionava em aniversário/natal/ano novo, porque são literalmente as datas que simbolizam a passagem do tempo, e aí tem várias fotos minhas chorando na hora do bolo invés de estar extravasando drogada de açúcar.

Pra me tirar esse medo de crescer minha mãe teve a idéia de dizer que se eu ficasse criança, minha melhor amiga iria passar a me achar uma pirralha e ia preferir sair com o namorado. Esse argumento hoje em dia seria completamente inválido, inclusive pela mulher que minha mãe se tornou, que jamais diria que um homem seria mais importante pra minha amiga do que eu. Mesmo aceitando a logística da vida, que envolve deixar de ser uma criança, no fim das contas minha amiga nunca me trocou por namorados e sim por livros. Então será que eu cresci em vão?

Parece que sim, mas estou bem resolvida e superei ter sido enganada. Se tivesse o encontro com meu pequeno coração de criança, ou de adolescente emo, diria: “Ta de boa, pode vim vindo que o mundo ta bixado mas dá pra curtir assim mesmo!”.

Propaganda de cigarro no intervalo dos desenhos, adultos exaustos, crises financeiras, injustiças, pessoas fumando em todos os ambientes fechados, alcoolismo, pobreza e muito mais no pacote “infância nos anos 90”. Questões fortes o suficiente pra fazer uma criança se questionar se aceita os termos e quer continuar ou se tem umas crises de choro – que é só o que dá pra fazer de qualquer maneira -. Além da existência que nossa sociedade propõe para classe operária, peguei o bônus de existência como mulher, herdei os genes indígenas e vim ao mundo sapatão. O mundo definitivamente não parecia que ia ser bom pra mim, tava claro desde sempre que ser mulher era osso, eu já logo me rebelei chorando toda vez que colocavam um vestido ou sandália desconfortável em mim. As mulheres a minha volta além de exaustas, sem tempo, cuidando da casa, dos filhos, também trabalhavam, estudavam e ainda se colocavam em dietas e rituais tidos como femininos, travando incansavelmente uma luta contra a natureza de envelhecer ou de apenas se ser como se era. 

Qualquer criança vendo o quanto tornam as pessoas -principalmente as mulheres- descartáveis com a idade, poderia concluir que ao chegar aos 30, a única festa possível é a da derrota! O evento será um humilhante tributo ao fim eterno da sua juventude, aceitando que o tempo venceu a grande batalha e você agora se encontra na descida da ladeira em direção ao bico do corvo – Poxa, eu disse que ia ser um texto positivo sobre envelhecer… mas calma porque eu aprendi a fluir no texto assim como na vida, então provavelmente essa leitura vai ser ruim e no fim dela é possível que você até acabe achando que foi boa.

Cheguei aos trinta e não foi exatamente um momento deprimente, apesar das circunstâncias foi um sentimento de contentamento de estar viva e pronto, afinal estar bem é privilégio e não obrigação, diria até que: “Vamo se sentir bem mas sem perder a empatia!”. Isso significa obrigatoriamente que o jeito é ter muitos altos e baixos mas não se abalar por não se iludir. O que foi mais diferente entre minha expectativa e a realidade sobre envelhecer? Aparentemente as pessoas não envelhecem mais como antigamente! Exagero? De certa forma, mas faça um teste e compare pessoas de 30 nos anos 80 com pessoas de 30 hoje! Não vou perder tempo tentando explicar esse fenômeno, isso é trabalho para os testemunhas de darwin, mas algo me diz que o ser humano está seguindo a linha cachorro de evolução, quanto mais fofo e por mais tempo mantendo o olhar de ingênuo de “pidunxo”, maiores as chances de sobreviver. 

Podemos fazer vários recortes de classe aqui também, isso explicaria muita coisa sobre envelhecer, mas pessoalmente eu sou só uma cozinheira multifuncional, nunca rolou plástica, minha maior intervenção foi tirar uns dentes do siso e mesmo sem o apelo estético, isso já explicaria muita coisa. Eu também parei de fumar tem uns bons seis anos, parei de comer tanto industrializado, transgênico… não sei se isso é tudo, mas envelhecer num mundo com tecnologia e medicina avançada é sem dúvidas muito melhor que na época que escreveram a bíblia.

Sobre meu recorte de classe: apesar de carregar muita melancólica, eu não cresci no pior contexto possível, a gente era pobre, sem exagero, mas a gente ainda se considera privilegiado, leia-se: família embranquecida. No quesito “cachorro em evolução” eu sou o sem raça definida, famoso vira-latas que a gente só fica pensando “até que se deu bem”. Aliás, me chamem de petista, mas que coincidência, porque nossa pobreza que mencionei melhorou muito na época do Lula, viu? Se hoje eu sou no mínimo uma mulher lérbica empoderada, dá pra dizer que mesmo fazendo pouco, esse governo safado de esquerdopata permitiu o mínimo de inclusão que gerou a nossa deliciosa militância, lacração e cancela ou não cancelamento. O básico pra gente ter o que fazer na internet, sem isso provavelmente seria invés de 70% resistência, apenas 85% reaça e 100% desgraça.

Foi nesse meu contexto que eu cresci uma criança que não queria crescer, para uma adulta que pensa: “Que bom que eu posso envelhecer”. As mudanças no mundo com certeza ajudaram muito a melhorar a estima da gente que sobrevive ano após ano, porque ainda é verdade: Ter 30 é literalmente ladeira abaixo!

Só que ladeira abaixo todo santo ajuda, então isso é um ponto positivo! Depois de tantos anos, finalmente vem chegando com o pacote de atualização, uma aceitação de que seu aparelho está ficando obsoleto e tentar manter atualizado vai torná-lo inútil. – Eu não sou aquela pessoa que vai te fazer ver o lado positivo de tudo, pelo menos não antes de falarmos umas verdades sobre o quanto ta ruim, principalmente no meio da pandemia enquanto o sistema colapsa. Eu sei que tá ruim demais, sei que não sabemos se dá pra consertar a merda que fizeram antes da gente e acho que já temos certeza que não vamos deixar um mundo tão melhor quanto o que recebemos, pelo menos não materialmente, já que nunca a destruição foi tão acelerada… Mas depois de tanta consciência de estarmos vivendo o caos, tem um click na cabeça: – O que vier é lucro!

Com certeza muitas pessoas sentem essa sensação antes dos trinta, mas aos trinta ela se consolida. Não é que envelhecer significa “desistir”, mas significa que as frustrações ou param de te definir ou você vai ser uma pessoa velha muito amargurada e chegar aos trinta é saber exatamente pra qual lado você está inclinando, porque eu sinceramente não recrimino ninguém amargurado, a pancada da vida as vezes é pesada mesmo. Não é fácil admirar os eventos milagrosos, encantadores e misteriosos que colocaram a gente nessa gincana de nascer, crescer, se tornar bem sucedido -seja lá o que isso signifique pra você- e morrer. Mas todas aquelas pessoas que você conheceu e foram felizes, brincaram numa roda de samba, fizeram algo bom para outrem: Elas também foram felizes apesar de tantos pesares e sim, apesar de serem pessoas lindas e resilientes, elas são os exemplos mais difíceis a serem seguidos.

Aos trinta colecionamos momentos o suficiente pra agradecer, saber onde focar melhor nossas revoltas, processamos muitos traumas, temos uma noção melhor do pra onde vamos levar isso que chamamos de vida e mesmo depois de muita escola, faculdade, estágios mal ou não remunerados, empregos bosta… também  chegamos aos 30 sem emprego, na pior crise dos tempos, assistindo ou participando de atos anti racistas, vendo uma confusão generalizada sobre o que pode e não pode mais dizer, ser, pensar, debater. Quantas pessoas de 30 eu conheço que estão a beira de um colapso? Praticamente todas! Acho que nossos pais provavelmente resolviam essas paradas comprando coisas, mas nós já temos lixo o suficiente pra nos dar ao luxo de tentar preencher nosso vazio existencial com compras. 

Para os adultos que avisaram meu eu adolescente revoltado que um dia eu ia entender, me sinto compelida a avisar que nossa geração já está se acostumando com o “Não tá tudo bem, talvez nem fique, mas vamo indo”.

É possível que aos trinta você ainda esteja alienado da situação? Sim, mas se você não for a pessoa em crise existencial preocupada em deixar o mundo razoavelmente menos pior, provavelmente você não está lendo isso e sim procurando sobre investimento na bolsa ou qualquer coisa que te faça ganhar mais dinheiro, afinal: Já que o mundo vai acabar, melhor você ser um dos bilionários que vai fugir pra lua na nave do Elon Musk! 

E como remediar? Talvez Nossa sociedade só melhore se acabar. Ano após ano as elites dão um jeito de explorar e se mantendo dominando as classes trabalhadoras, dominando principalmente o pensamento. As pessoas se munem de soberba, auto ajuda e outras formas de manipulação para enganar e manter também cleros espirituais/religiosos de poder e pra todos os efeitos não temos mais noção de onde retomar o fio da meada para a sanidade. 

Aqui percebo pelo menos um terço da expectativa de vida que eu poderia ter, reduzidos pelas incertezas do: “Será que eu vou poder pagar pra viver?”. O momento crucial do nosso sistema sendo construído sob meus olhos e sem aposentadoria ou perspectiva, a ansiedade vai perdendo a importância na medida que recordamos nas histórias que estamos fadados a fazer o que tem que ser feito, se o instinto chamar, iremos a luta e arriscaremos o tudo (que já pode ter chegado a nada). Se a hora chegar a gente vai saber, isso deve ser o mais próximo do hakuna matata que consegui realizar da minha infância pra cá.

Dicas de bem viver? O método de defesa que eu escolhi pra sobreviver tantos anos sem danificar meu cérebro foi tentar não perder tempo com ressentimentos lançando um bom foda-se. É real, nunca vamos agradar a todos, mas tente agradar umas cinco pessoas pelo menos, isso é importante caso você também queira envelhecer. Pedir desculpas também tem se tornado um ato mais simples pra mim, porque tenho me lembrado de maneira mais recorrente que sou humana, estou passível de erros, então não é nada de muito absurdo no percurso ser levada à exaustão, dar uma surtada e precisar me desculpar pelo vacilo. Com trinta tá mais fácil lançar um sorry a la Justin Bieber e seguir o jogo, aliás, também já foi liberado envelhecer e apreciar o que a juventude tem aprontado.

O trinta é uma etapa de mediação entre as gerações, um meio termo entre “tô velha demais pra essa merda” e “nova demais pra estar tão velha”, ou seja: Hoje tenho em mim a sensação da valorização plena das pessoas mais velhas que eu, porque fica evidente que não é só por sorte que se sobrevive, tem uma porção de talento e como disse Emicida: Exu! Tem também a valorização plena da juventude, porque a gente cria uma esperança de eles consigam fazer mais que a gente tá fazendo. Eu tenho uma irmã de dez anos e a prova que eu não tenho nem noção do que vai rolar com eles é que ela falou “a namorada da minha irmã” pros amigos e não rolou nenhum segundo de choque, zero! Eu sou lésbica tem trinta anos e permaneço mais chocada que eles.

Por outro lado, parte da minha geração pegou o b.o de diminuir o impacto da nossa existência no planeta, e é com a sabedoria dos mais velhos que entendemos que ir pra trás nem sempre significa retroceder. Agroecologia, bem viver indígena, alternativas naturais biodegradáveis, tudo que nossa ancestralidade guardou no museu da novidade é aquilo que a gente tem que ir atrás, seguir a onda desse povo raiz! 

Se você é só um mortal, envelhecendo sem ser digital influencer ou qualquer coisa que pareça importante: Tá tudo bem, de verdade! Eu sei o quanto é foda ver gente que você sabe que é escrota se dando bem por oportunismo, e eles sabem disso também, só têm mais estômago pra bancar o que é necessário pra chegar lá. Lembra que a gente vê estátua dos caras mais errados e estuda eles na escola? Ser famoso é zero importante pra se realizar, pode desapegar sem erro, mas uma coisa sobre ter trinta é real: A gente encara oficialmente que devemos preparar o terreno e plantar, porque se a gente não bancar essa função, as próximas gerações não vão ter nada!

E é nesse caminho que vou percebendo que envelhecer só é ruim para quem se apega demais. O caminho é pra frente e às vezes o pra frente é pra trás, o velho parece novo, o novo vem carregado do antigo e assim vai. Pra envelhecer bem tem que incorporar bem o papel, saber jogar esse joguinho e não se frustrar com a ilusão da brincadeira.

Não tem certo e errado, só aquele bom monte de consequências. 

Nessa onda de renovação aos trinta, aliviar minha onda e não pirar nas idéias, eu resolvi fazer um ritual de faxina para receber esse espírito triunfante de três décadas que vos escreve, literalmente, fiquei uns três dias limpando a casa e enquanto esfregava o chão, o chão me esfregava. Limpar aquele canto que eu andei negligenciando durante a pandemia foi uma metáfora pra limpar da minha vida coisas que definitivamente não iam caber na jornada pós vinte e poucos. Ali cheguei a conclusão adulta com a qual encerro esse textão: Faxinar pode ter sido a meditação ativa das mulheres por muitos séculos, por isso nossas mães sempre foram essas mulheres sábias, afinal é impossível não ter consciência de si e do outro quando é você que limpa a sujeira de todo mundo! Veja que mesmo conscientes, as mães nunca deixaram de ser revoltadas, porque é essencial ao alcançar a iluminação que a prole também seja iluminada da compreensão de que é inaceitável se tornar um ser humano folgado e egoísta que não lava a louça ou não arruma a própria bagunça. Então  fica aqui meu obrigada para todas as pessoas que cumpriram esse papel de mães em nossas vidas e que não nos deixarem ser assim tão inúteis e vulneráveis na vida adulta. 

Espero que tenham ficado reflexões positivas, afinal envelhecer deveria ser assim naturalmente complexo e nostálgico. Foi bom ter sua companhia nessa leitura, assim espero que tenhamos próximas, até mais! 

Nathali Urbano ak ig @bruxonaprendiz

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Não tem como ser Anticapitalista sozinho

O nosso erro começa, pois, na pós-modernidade não existe uma identidade revolucionária, com os vários caminhos e as várias faces da esquerda atual. Frequentemente eu vejo posts super-radicais que apenas fragmentam e dividem a “turma” entre radicais e pelegos, e vira uma disputa contínua que se retroalimenta e não agrega em nada, essa falta de semântica entre reformistas e revolucionários nos faz perder muito tempo e não focarmos no que realmente tem que ser feito. Como todo sistema cria as suas próprias anomalias, o Capitalismo não está imune a essa condição, pois ele mesmo cria os “Anticapitalistas”. E eu percebo um estreitamento, uma pressão cada vez maior na população principalmente se tratando do nosso cenário brasileiro, existe um acirramento, porque percebo que está em curso uma “desmocratização” liberal, ou seja, muitos dos direitos que resguardam o individuo perante o
coletivo que foi conquistado com muito suor e sangue, estão sendo retirados, pasmem, por vias democráticas.

E tem muita gente que sente os efeitos disso mesmo que de forma subjetiva, muito em conta de uma crise econômica de certa maneira fabricada, mas que faz parte das crises cíclicas inerentes a esse sistema, que foram agravadas com essa pandemia;
Por exemplo: a política que rola há pelo menos a cinco anos por aqui de forma contundente. Mas o que observo é que temos uma taxa de mobilização em nossa sociedade relativamente baixa, em momentos e locais específicos a gente vê pessoas se juntarem, quando existe uma tragédia, como agora mesmo diante dessa pandemia ou no caso da esquerda quando a Marielle foi assassinada, mais recentemente quando houve a movimentação pela Educação e Pesquisas e as queimadas na Amazônia; Mas da pra ver que vivemos isso em ciclos, vamos às ruas depois voltamos, voltamos às ruas depois recuamos, e isso vai gerando uma frustração muito grande pra quem vai e adere a essas pautas, porque a gente fica naquela duvida se ao final daquele movimento, daquele dia vai haver um resultado concreto, até que ponto essas pautas e demandas serão atendidos?  Isso vai nos frustrando drasticamente.

Eu por exemplo em minha adolescência aderi a todos os movimentos de “Não ao aumento das tarifas de transporte”, desde que o José Serra era prefeito isso em 2005 e subsequentemente até 2013 e de lá pra cá, apanhei de PM e tudo mais e a tarifa só aumentou! E todo esse movimento ainda serviu de estopim para a derrubada da Dilma em 2016, quer frustração maior que essa (risos). Tudo isso faz a gente pensar o porque eu vou pra rua, o porque vou aderir a A ou B se não vejo efeito concreto diante disso; A não ser uma disputa de narrativas posteriores e ilações a certa disso ou daquilo.
O que eu quero expor aqui é o seguinte, nós temos que pensar seriamente o quesito ORGANIZAÇÃO, que é necessário a gente compreender que é o anticapitalismo pra ele ter um efeito mais perene num projeto de sociedade e poder, ele tem que ser de “ponta a ponta” do “anti ao pró”, ou seja, o anticapitalismo surge da observação e entendimento das tensões e exploração inerentes a esse sistema QUE NÃO FUNCIONA. Mais o que a gente quer por no lugar? E uma vez isso definido surge o principal, como chegaremos lá JUNTOS? Por quais vias? Essa é a pergunta chave!

Creio que não tem como a gente se contentar em falar de anticapitalismo sem desdobrarmos quais são as experiências que já ocorreram no campo pessoal e histórico, o que a gente quer aproveitar delas e o que a gente quer deixar no passado, e o que temos que  construir, porque temos desafios novos também, porque eu vejo que a esquerda atual tem o duplo desafio em apagar incêndios momentâneos e as mentiras proferidas pela direita, e ao mesmo, ter tempo para dialogar suas visões e expor as coisas de forma mais racional. O que se torna um trabalho muito cansativo, em apontar uma mentira e mostrar o porque aquilo é uma mentira. Então, fica nítido o despendimento energético da galera mais acadêmica que se baseia em ciência e observação das ciências principalmente as humanas, ou ciência como um todo em tempos de terraplanismo intelectual e pós-verdades.

Eu vejo muito a galera do Eco socialismo, que é uma pauta realmente atual tendo dificuldades tremendas no seu campo de atuação, tentando fazer a galera compreender mais sobre metabolismo ecológico, os limites materiais do nosso planeta em fornecer insumos e matérias-primas, porque mudança climática é um tema recente e pra ONTEM. E como reunir as diversas pautas e fragmentações entorno desse projeto de sociedade, e isso faz com que a gente tenha que pensar quais serão nossas táticas e estratégias muito, mais muito cuidadosamente. Mas ao mesmo tempo temos uma boa parte da população que está quase em outro plano, por conta da despolitização, ou, por conta das necessidades materiais inerentes a cada ser humano de sobrevivência mesmo, visto que 30% da população do Brasil vive em extrema pobreza, e eu queria discorrer um pouco sobre isso aqui, que um dos maiores males que vejo na galera de esquerda é essa, de que todo mundo é bolsominion, é alienado e isso e aquilo, porque o que podemos notar é que apesar de haver uma falsa polarização politica na sociedade e uma fragmentação dentro da esquerda e direita, inclusive a direita se mostrando bem fragmentada no momento, a partir disso a gente observa que tem disputas politicas ocorrendo em todo o mundo. O nosso papel como anticapitalistas é dar um sentido a tudo isso, e o que nós vemos é que as pessoas num geral em nossa sociedade, elas tem a nítida noção que elas estão sendo EXPLORADAS, mas elas não sabem por quem, perderam o foco de quem é o “Rei”, não tem pertencimento de classe. Nisso, o inimigo se torna algo vago, como Eu mesmo, o Diabo, os Iluminatti, os comunistas, o presidente, etc. Hoje em dia até mesmo os direitistas Olavistas se acham os revolucionários, sim, eles acham que estão “revolucionando”, o século XXI realmente produziu aberrações intelectuais!

Retomemos o foco, nós temos noção do que é a exploração, o que é o suor o cansaço, o correr atrás do próprio rabo, o boleto que venceu, vender o almoço pra ter a janta. O que é a luta pelo direito a cidade, qualquer um que more em uma grande cidade sabe, lutar pelo espaço o publico, enfim. Essas pessoas, elas tem noção do que é a desigualdade e a exploração também; O que a gente precisa trabalhar é esse deslocamento sobre o entendimento do que é a exploração e desigualdade, porque elas não precisam ler Marx, elas sentem isso na pele empiricamente, e temos que deslocar isso para uma ciência de classe, de pertencimento a um determinado espaço e grupo, sem muitos florismos intelectuais, pois o que falta entender é que se você é explorado então você é classe trabalhadora, não você não é um “parceiro”, sócio, empresário um empreendedor em potencial, você é um explorado. Existe uma tendência hoje em dia em romantizar quem “trabalha duro”. “Não eu trabalhei muito, muito duro, tive várias profissões e isso me dá aval a ter qualquer aspiração”; Quando isso na verdade é muito ruim, e só serve para se achar distante de quem não se “esforçou” realmente, quando na verdade você pertence à mesma classe de EXPLORADO, ou seja, CLASSE TRABALHADORA. Vejo que temos que realmente usar o nosso tempo para dar esse sentido às pessoas de que estamos no mesmo barco, independente de identitarismos toscos ou ideológicos, ou se você tem casa própria ou mora num barraco, todos somos TRABALHADORES EXPLORADOS, por um sistema que já esta feito e independe de atores, ou seja, se tirar a pessoa não muda nada!

Existe a PL 5491/2019 do Clauber Braga, que hoje em dia parece absurda, que faz distinção entre emprego e tempo de lazer, e direito a um emprego digno, porque como dito a cima existe uma glamorização de que existe bastante exploração eu trabalho muito e uma hora o jogo vai virar, e essa concepção é puramente ideológica que impede que as pessoas tenham uma noção direta da sua compreensão como classe, então eu diria que não há uma alienação direta como dizem por ai, de que o empreendedorismo subiu a cabeça ou algo do tipo, quando na verdade é a necessidade material que faz com que as pessoas busquem ferramentas e caminhos disponíveis dentro da sua ótica de mundo. É isso que quero deixar claro, as pessoas
entendem, ou melhor, sentem na sua própria pele a sua condição de explorado, o que lhes faltam é justamente essa condição situacional de pertencimento de classe, para que assim elas possam extravasar essa condição de forma mais focada e com propósito. O que a gente precisa
trabalhar um pouquinho é que tipo de significado, que ponte de significado a gente tá criando entre nós, quais são as linguagens que a gente usa para interpretar nossa realidade e fomentar vínculos entre nós? Eu digo, nós porque eu também sou militante e também sou classe trabalhadora, os meus ao meu redor também o são, só que temos muita gente em condição
precária que não tem nem tempo para dormir uma hora a mais, quanto mais tempo para militar ou se aprofundar em um determinado assunto. Esses são os desafios para a esquerda que esta organizada em meio a tanta fragmentação, estar trabalhando nessa questão de linguagem o que alguns chamam de “Campo Semântico”; Semântica tem haver com significado, que tipo de significado comum nós conseguimos estabelecer com todas as pessoas, e essas situações que a gente esta hoje em dia de calamidade e desumanização continua, faz com que, quando a gente pensa em resistir existe o medo da opressão.

Principalmente quem esta no Campo, seja movimentos como o MST ou os indígenas, nas cidades os movimentos como o MTST e associação de moradores de comunidades carentes, essas pessoas já sentem diretamente essa opressão, não precisa de muito para ver quantas lideranças do Campo já foram mortas, mais recentemente no Maranhão e um caso emblemático urbano o que aconteceu com a Marielle Franco. Ai quando a gente pensa, à
vamos reunir um monte de gente para fazer alguma coisa, esse medo da repressão triplica, porque as pessoas já sentem isso no seu dia a dia de forma velada e subjetiva. Porque a democracia nesses espaços já é falha e muitas vezes nem chegaram por lá. Única maneira que vejo da gente recobrar essa confiança é através da solidariedade, é estando fisicamente presente, preencher essas lacunas deixadas pela anomalia sistêmica, é mostrando serviço, e não teorizando no “chão” das universidades e espaços de classe média pseudo intelectual, é quase um jargão um mantra a gente ter que ficar batendo na mesma tecla de que a esquerda tem que voltar a fazer o trabalho de BASE, mais o que significa fazer esse trabalho de base, não pode ser interpretado como “há, daqui dois meses tem eleição tenho
que botar a cara”, tem uma fala muito interessante da Ester Solano que diz: “muita gente se voltou para igreja evangélica, não é porque já tinha um fervor muito grande em Jesus, porque na hora que o negócio apertou eram eles que estavam lá…”; Outra pesquisadora a Gabriele Nascimento fala nessa mesma linha, muito interessante porem doloroso para nós da esquerda assumir, é que: “Quando teve o massacre no presidio em Altamira, quem esta lá para auxiliar as mães e esposas do lado de fora? A igreja Universal e Católica, dando comida e suporte as famílias”. Então onde a gente está nesses momentos mais cruéis? Quando tem as chacinas nas
periferias, onde a esquerda esta? Lacrando na internet? Onde nós estamos no dia à dia, na militância para que essas coisas nem aconteçam?
Esse é o ponto, onde construímos essa ponte semântica revolucionária, é estar presente no quotidiano de coisas que nem sequer viram noticia de jornal. É ai que a gente vai construindo um movimento onde se entender como explorado passa a virar um entendimento de CLASSE EXPLORADA!

Eu não estou sozinho, eu não me sinto sozinho, tem outros aqui comigo lado a lado, isso que dá sentido de grupo a nós humano, inclusive isso é o que nos torna HUMANOS, estamos passando por situações similares, eu tenho com quem contar, e a partir do momento que eu tenho com quem contar automaticamente eu tenho como me ORGANIZAR, Onde esta a sua radicalidade? E nesse momento que as pessoas têm medo da repressão, a resistência ela se dá através desses espaços que passam meio despercebidos pelos aparatos de repressão, espaços como hortas comunitárias, como economia solidária, creches comunitárias, espaços onde a gente se dá a mão e tem a possibilidade de sentir a necessidade do outro, e isso é extremamente poderoso, mais não dá “lacração”, não dá muita curtida, não parece interessante aos olhos de quem acha que o sistema vai cair através das armas, da radicalidade, nós temos muito trabalho antes de chegar em um momento chave como esse, ai eu tenho que descordar dos meu camaradas que acreditam que a revolução já esta ocorrendo, a revolução ainda não esta acontecendo, quem dera, porque a revolução não tem mais essa cara de estar falando de revolução, a revolução acontece no momento em que nós começarmos a chacoalhar as bases, não no sentido de acabar com a desigualdade, mais sim destruir o SISTEMA CAPITALISTA, nunca poderemos desviar da nossa pauta mestra, nós não viemos amenizar as dores do sistema, que isso não funciona, por isso a organização é necessária, junte-se aos espaços nos quais as necessidades são concretas, e eu sei que cada pessoas que ler isso trabalha e rala todo santo dia e sabe de suas necessidades, elas criam pontes para as necessidades das pessoas ao seu redor, e a partir disso a gente vai conseguir conversar um com o outro, e criar laços de confiança e solidariedade que estão tão fragmentados em nossa sociedade hoje, que estão em uma situação de anomia e que a partir disso a gente vai chegar naquele ponto tão almejado de combinar as “revoluções” e finalmente derrubar esse sistema.

Ai eu quero finalizar sobre essa questão importante: NÃO TEM COMO SER ANTICAPITALISTA
SOZINHO.
PAZ.

Luccas Fortuna Gonçalves
10/04/2020

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Sem medo do escuro – Compreendendo a Sombra

Quando você era pequeno, você tinha medo do escuro? A maioria de nós sim. E eu aposto que muitos nunca filosofaram muito além sobre essas questões do medo. É natural que tenhamos medo da escuridão, pois a escuridão é repleta de coisas desconhecidas que podem nos machucar.Mas o que geralmente acontece quando acendemos a luz? Aprende-se que o desconhecido não é tão amedrontador, e nem tão desconhecido assim. É apenas uma parte do ambiente. Continuar lendo “Sem medo do escuro – Compreendendo a Sombra”

O Grande Jardim – Ínicio

 

Olá! Iniciamos hoje, dia 03/03/2015 este blog que cujo intenção é divulgar textos, documentários, ideias e ideais sobre a passagem mundana terrena na web interface, quem sabe daqui a milhões de anos alguém tenha curiosidade sobre nossa forma atual de viver, queira conhecer nossa história no grande e belo jardim…

Viva nós e nosso imenso e ancestral poder, o da comunicação!

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