O Poder Curativo do Perdão

Todos nós, durante a nossa vida, desde o momento de nossa concepção no ventre materno, sofremos influências de acontecimentos que nos marcam mais ou menos profundamente: traumas, mágoas, etc. Muitas vezes não percebemos sua influência em nossa vida, pois são conteúdos que ao longo do tempo permanecem em nosso subconsciente e por isso mesmo, podemos ter dificuldade de identificá-los, combatê-los e principalmente, curá-los. Dentre tudo o que nos bloqueia, uma das coisas mais frequentes é a mágoa para com os irmãos, para consigo mesmo e até para com Deus.

Trazendo isso para uma perspectiva individual e coletiva, vamos lembrar de como atualmente vivemos em um mundo globalizado que sempre tem alguma crise no horizonte, seja ela uma possível recessão global, guerra, COVID, climas políticos cada vez mais polarizados, enfim… Parece que estamos mais em desacordo com nossos semelhantes do que nunca. A mídia social tornou ainda mais fácil para amigos, parentes e estranhos nos ofenderem. Mas e se guardar rancor estiver impedindo você de encontrar a verdadeira paz e felicidade? Dizem que “o ressentimento é como beber veneno e esperar que a pessoa morra ”. Se o ressentimento é um veneno, talvez o perdão seja o antídoto.

Para ilustrar bem o que estamos falando, vamos usar um exemplo de perdão público de nossos tempos que chocou a sociedade, mas que tem muito a nos ensinar. O congressista da Geórgia, John Lewis, é um ativista dos direitos civis afro-americano que sofreu uma opressão indescritível no sul americano racialmente dividido da década de 1960. Cerca de 30 anos depois de ter sofrido uma surra severa por defender a solidariedade pela igualdade racial, ele escreveu um (agora famoso) artigo de opinião para  o The New York Times após a morte de um de seus perseguidores políticos mais declarados.

No artigo, Lewis surpreendeu à todos quando ofereceu palavras não de ódio contra o homem, mas de alívio e perdão de bom coração.

Caso você não esteja familiarizado com esse detalhe específico da história americana, o ex-governador do Alabama, George Wallace, foi considerado por muitos como uma das vozes mais firmemente segregacionistas da época. Mas em vez de envergonhar o legado de Wallace em um dos jornais de maior circulação do mundo, Lewis (que cresceu assistindo Wallace promover a divisão entre negros e brancos no cenário nacional), perdoou aberta e publicamente seu ex-arquirrival para grande surpresa do povo americano. Lewis destacou a incrível transformação que observou em Wallace depois de finalmente conhecê-lo pessoalmente pela primeira vez em 1979. Lewis escreveu sobre como Wallace havia mudado e agora buscava perdão por tudo o que havia prejudicado, expressando profunda tristeza e remorso pelo que havia feito.

Lewis se lembra de ter sentido um profundo sentimento de empatia por Wallace em seu estado de humilde remorso, levando-o a perdoar Wallace ali mesmo. A beleza dessa troca e como ela amoleceu o coração de ambos os homens, abrindo a porta para a verdadeira reconciliação, é capturada nesta simples frase escrita por Lewis:

Quando conheci George Wallace, tive que perdoá-lo, porque fazer o contrário? Odiá-lo? Apenas perpetuaria o sistema maligno que procuramos destruir.”

John Lewis para o New York Times.

O perdão promove a reconciliação e a paz

Depois disso, não importava mais todas as coisas horríveis que Wallace havia feito durante seu mandato político para lutar contra os direitos civis; pelo menos não em termos do legado que ele deixaria na mente de Lewis. Isso porque Lewis, como admitiu abertamente em seu artigo, reconheceu no fundo do coração que todo ser humano tem a capacidade de mudar para melhor.

E mais importante, que a graça e o perdão são os motores mais poderosos dessa mudança. Não só naqueles a quem são concedidos, mas também na pessoa que os concede.

Esta é a essência do perdão: estender a graça aos outros e deixar de lado as maneiras pelas quais eles o prejudicaram, a fim de promover a reconciliação e a paz.

No caso de Lewis, o perdão talvez tenha vindo muito mais fácil porque Wallace não era mais o que era antes, pois havia aberto olhos para o fato de que seus erros anteriores precisavam ser corrigidos. Mas mesmo que Wallace não tivesse passado por essa dramática mudança de vida, o perdão ainda seria do interesse de Lewis. Não apenas por causa de sua consciência, mas também por sua própria paz de espírito.

O perdão é a mais pura expressão do amor, pois é a compreensão de que cada ser age conforme à consciência que possui naquele dado momento e de que todos possuímos as falhas e imperfeições, mas que também estamos em eterno aprendizado e desenvolvimento. Perdoar é libertar o seu ser e o outro. É aprender e deixar o outro livre para aprender também.

Guardar rancor corrói você

O perdão é uma via de mão dupla. Tem o poder de curar tanto o perdoador quanto o perdoado, e isso é algo que muitos de nós muitas vezes esquecemos. Guardar rancores e reprimir emoções negativas que vêm de ressentimentos do passado só piora a situação para aquele que foi ferido em primeiro lugar, e no final, isso te corrói emocional e fisicamente. Sabemos que o corpo físico é totalmente influenciado por nossa psique, nossa saúde é integral e envolve todas as partes do nosso ser constituído. O rancor e a mágoa pode desencadear diversas doenças psicossomáticas e influenciar negativamente a forma como interagimos com o mundo e com a própria vida.

Para encontrar a libertação e superar as feridas do passado, é absolutamente vital aprender a perdoar aqueles que o prejudicaram e deixá-lo ir. A Bíblia descreve esse processo como “oferecer a outra face”, que envolve não apenas tratar os outros como você gostaria de ser tratado (mesmo quando eles o tratam de maneira injusta), mas também reconhecer que todos nós somos imperfeitos e precisamos de perdão.

Na prática, é agir em amor e desapego. Seja deixando de lado a raiva, o ressentimento, a amargura ou um sentimento de necessidade de “se vingar” de alguém por magoá-lo ou traí-lo. Quando você deixa de perdoar, acaba se machucando mais do que a pessoa que te machucou. Mas quando você aceita o perdão, você libera toda a dor, angústia e bagagem que, se não forem curadas, interferem em seu bem-estar emocional, espiritual e físico.

O perdão sana as feridas do coração

Vemos ainda hoje tantos corações endurecidos e amargurados nesse mundo e se formos listar aqui todas as reverberações disso em nível coletivo e individual este artigo não teria fim. Mas percebe como uma emoção leva à outra? Como somos influenciados diretamente pelo o nosso coração? Da mágoa e do ressentimento surge o medo, a aflição, a raiva, etc. Agora imagine suas emoções como uma esfera de energia, crescendo e expandindo, tocando a forma que você vê e lida com a vida.

Agora eu te pergunto, te surpreende ainda haver tantas guerras e conflitos nas relações humanas? rs. Será que algo seria diferente se houvesse mais perdão na sociedade? Por esse belo exemplo que trouxemos de John Lewis, eu acredito que sim.

Mas o perdão é um ato deliberado da nossa vontade – é só se quisermos.

Temos de decidir, tomar essa decisão para perdoar as pessoas que nos ofenderam, as que nos maltrataram, as que nos magoaram, as que nos injustiçaram, que nos roubaram. Perdoar está além do nosso sentimento, está além de nossas suscetibilidades. E talvez seja essa uma das razões do porque perdoar possa ser tão difícil as vezes, pois para tal, precisamos aceitar nossas vulnerabilidades, nossos medos e fragilidades. É preciso abrir o coração. Como já dizia Bob Marley, “ser vulnerável é a única maneira de permitir que seu coração sinta a verdadeira alegria“, e abrir o coração na jornada espiritual, muitas vezes significa também quebrá-lo, ou seja, permitir ser atravessado pela dor, aprender com ela e transformá-la em amor e perdão.

É na abertura do coração ao amor e ao perdão que somos agraciados com uma vida de paz e felicidade verdadeira, pois agora já não nos pesam mais as feridas, agora já aprendemos a ter compaixão e humildade.

Mesmo que você não consiga esquecer, aprenda a perdoar

O velho ditado “perdoe e esqueça” soa bem, mas vamos encarar: esquecer nem sempre é viável. Traumas emocionais e físicos graves podem causar danos duradouros. Tanto que esquecer verdadeiramente que eles aconteceram às vezes é uma impossibilidade. Perdoar aquela pessoa que te feriu também não significa necessariamente uma reaproximação.

Mas a parte do perdão é sempre  possível e é a única maneira de finalmente liberar a dor e a opressão causadas por aquela ofensa “imperdoável”. Lembre-se: não se trata de  justificar o mau comportamento de outra pessoa contra você, mas sim  liberar  toda a energia negativa que ela enviou para você, a fim de que você encontre a paz. Isso, por sua vez, ajudará seus outros relacionamentos, promoverá o seu bem-estar espiritual e psicológico, reduzirá o estresse e a pressão sanguínea, aumentará sua imunidade e ajudará a trazer alegria e felicidade duradouras à sua vida.

Algumas dicas úteis para aprender a perdoar:

  • Reflita sobre suas próprias falhas e pense em situações em que você precisou do perdão de outra pessoa. Fazer isso o ajudará a ter empatia por outra pessoa que pode precisar do seu perdão.
  • Considere o valor imensurável e o poder do perdão, tanto para você quanto para os outros.
  • Pare de pensar em si mesmo como uma vítima e comece a assumir uma postura moral elevada em todas as situações em que se sentir ofendido ou prejudicado. Fazer isso ajudará a liberar o controle opressivo que a ofensa de outra pessoa exerce sobre sua vida.
  • Escolha ativamente perdoar para perpetuar uma cultura de reconciliação, cura e paz. Ahh como nosso mundo precisa dessas coisas, não é?

Em uma nota final e importante…

Frequentemente, os “rancores” mais prejudiciais que guardamos são contra membros de nossa própria família e amigos do passado, cujas transgressões contra nós anos ou décadas atrás são ainda mais dolorosas porque eram pessoas em quem confiamos.

E muitas vezes essa raiva e angústia prejudiciais estão enterradas tão profundamente que não percebemos o quanto isso está nos prejudicando. Isto é, até que conscientemente “olhemos nos olhos” do nosso coração, reconheçamos a raiz do sofrimento e decidamos deixar ir e perdoar.

~*~

Artigo elaborado por YanRam para O Grande Jardim.

Fontes: The New York Times; Wake Up World; Aprendizados pessoais e estudo do livro “Na força do Amor e do Perdão” de Maria Gabriela Oliveira Alves, editora Palavra & Prece.

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O Lado Bom da Depressão

A encantadora Marie-Louise von Franz, a grande pupila de Carl Jung, falou sobre a obra de Jung e a psicologia dos tempos. Diz ela: “A depressão é uma bênção divina, é a maior bênção”. Von Franz explica que sem uma depressão ou neurose, o homem não olha para dentro: “Enquanto as coisas vão bem fugimos para fora de nós mesmos” e dentro de nós é que está a verdadeira riqueza, a luz que pode iluminar nossas vidas.

Evidentemente, em pessoas que sofrem de depressão crônica, essa ideia dificilmente será bem-vinda. A depressão parece uma maldição e, certamente, pode se transformar em uma. A psicologia junguiana, no entanto, acredita que a psique é a realidade primária e, portanto, a depressão é uma maneira de se comunicar com as partes mais profundas da psique, como se fosse em contato com o divino ou luminoso subjacente à experiência consciente diária.

Devemos mencionar que, de acordo com a psicologia junguiana (e consistentemente, por exemplo, o budismo), as doenças físicas têm origens psíquicas. Assim, por exemplo, uma doença ou uma dificuldade são, paradoxalmente, as tentativas da alma de curar, forçar o indivíduo a mudar ou, pelo menos, observar certas coisas que estão em seu inconsciente e precisam se manifestar como já abordamos em “A Loucura como Consequência da Mecanização da Vida”. Podem até sugerir que as doenças, e não os sintomas, são as manifestações físicas da simbolização da psique, do inconsciente que tem acesso aos arquétipos e a uma infinidade de informações intocáveis.

Jung entendeu literalmente a depressão, mas como algo que surge na psique e se manifesta no alquímico. Depressão literalmente é o que nos traz para baixo, é uma descida. Mitologicamente, a jornada do herói envolve necessariamente uma descida ao submundo. Na alquimia ocidental, a grande obra – cujo fim era a pedra filosofal – só pôde ser iniciada quando a fase “nigredo” foi introduzida, o lado escuro/oculto da alma que deve ser explorada e purificada e que, de fato, é o centro do trabalho. Psicologicamente, a depressão nos permite ver o que está abaixo do nosso ego e do qual nos esquivamos porque não é fácil reconciliar com a nossa personalidade – ou a máscara que usamos para se relacionar com o mundo. Isso é vital, porque as causas de nosso mal existencial certamente não estão na superfície, na luz e no que nos parecem agradáveis, e não podemos encontrar um significado existencial se não conhecermos a profundidade de nossa psique e suas motivações secretas. Provavelmente, uma pessoa que nunca esteve deprimida – ou que não tenha prestado muita atenção à sua depressão – é uma pessoa superficial que é guiada pela consciência de massa e não se conhece bem o suficiente.

Obs.: Nigredo é uma palavra em latim que significa escuro. Foi adotada pelos alquimistas para designar o primeiro estado da alquimia: a morte espiritual, significando decomposição ou putrefação. É sucedido pelos estados albedo (purificação), citrinitas (despertar) e rubedo (iluminação).

Assista ao vídeo, da entrevista incrível feita a Marie-Louise von Franz: – ative as legendas em Configurações – 

Em uma carta famosa para um paciente, Jung escreveu:

“Quando a escuridão se tornar mais densa, penetrará fundo em seu núcleo, e não descansará até que uma luz apareça em dor, já que no exessu affectus (em excesso de paixão) a natureza se reverte.”

Em outras palavras, a depressão pode ser a fonte de uma espécie de felicidade sem fim o início do caminho para uma verdadeira autos satisfação, e também, muitas vezes aí descobrimos quem está verdadeiramente ao nosso lado em nossa relação de interdependência; os verdadeiros tesouros, o ouro que por sua vez estão nas profundezas da terra. Ou, como escreveu Camus, “no meio do inverno eu encontrei um verão invencível em mim”.

rinponche

Essa visão da depressão pode ser comparada com as ideias do professor tibetano Chögyam Trungpa:

“A depressão não existe apenas no vácuo, ela tem todos os tipos de coisas inteligentes que estão acontecendo nela. Basicamente, a depressão é extraordinariamente interessante e é um estado de ser altamente inteligente. É por isso que você está deprimido. A depressão é um estado mental de insatisfação pelo qual você sente que não tem saída. Por isso, trabalha com a insatisfação da depressão. O que quer que esteja lá é extraordinariamente poderoso. Tem todos os tipos de respostas, mas as respostas estão ocultas. Então, na verdade, acho que a energia da depressão é uma das mais poderosas. É uma energia extremamente desperta, embora você provavelmente a sinta sonolenta”.

wallace

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Que essa reflexão traga luz ao nosso interior.

Artigo de Luccas Fortuna para O Grande Jardim.

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