Trintão e Textão

Texto da amiga Nathali Urbano ak ig @bruxonaprendiz

Já li alguns textos sobre fazer 30 ou 50 na internet, alguns deles me fizeram ser uma pessoa muito mais segura com o sentimento de envelhecer, por isso pensei: E se eu der um depoimento positivo sobre envelhecer, apesar das circunstâncias de fim de mundo? Então aqui estou eu pra falar um pouco da minha jornada até os trintão.


Trinta anos é uma data que poderia acompanhar um festão, afinal nem tanto tempo atrás ter trinta já era ser praticamente idoso. Mas assim como todas as pessoas que levam a quarentena a sério, a maioria das pessoas nascidas no ano 90 trintou/vai trintar em casa sozinha ou com um grupo muito reduzido de pessoas. A gente de 90 chegou nesse mundo no fim da festa, tanto do século quanto do milênio, tudo isso já lidando com os impactos absurdos do uso inconsequente de recursos naturais, dos problemas sociais jamais resolvidos e fomos deste fim de festa sem fim, ressaqueados, diretamente para a era digital. No lugar de festão, vamos de textão: 

Uma das coisas sobre mim que dizia bastante que tipo de adulto eu iria me tornar, é que quando criança, eu tinha umas crises de choro existenciais: Basicamente porque não queria crescer, mas também porque não queria morrer e renascer em outra família – Minha família é católica e não faço idéia de onde tirei isso de achar que eu ia ter que passar pelo calvário da vida mais de uma vez -. Talvez por esse medo de crescer e fatalmente morrer, eu sempre me emocionava em aniversário/natal/ano novo, porque são literalmente as datas que simbolizam a passagem do tempo, e aí tem várias fotos minhas chorando na hora do bolo invés de estar extravasando drogada de açúcar.

Pra me tirar esse medo de crescer minha mãe teve a idéia de dizer que se eu ficasse criança, minha melhor amiga iria passar a me achar uma pirralha e ia preferir sair com o namorado. Esse argumento hoje em dia seria completamente inválido, inclusive pela mulher que minha mãe se tornou, que jamais diria que um homem seria mais importante pra minha amiga do que eu. Mesmo aceitando a logística da vida, que envolve deixar de ser uma criança, no fim das contas minha amiga nunca me trocou por namorados e sim por livros. Então será que eu cresci em vão?

Parece que sim, mas estou bem resolvida e superei ter sido enganada. Se tivesse o encontro com meu pequeno coração de criança, ou de adolescente emo, diria: “Ta de boa, pode vim vindo que o mundo ta bixado mas dá pra curtir assim mesmo!”.

Propaganda de cigarro no intervalo dos desenhos, adultos exaustos, crises financeiras, injustiças, pessoas fumando em todos os ambientes fechados, alcoolismo, pobreza e muito mais no pacote “infância nos anos 90”. Questões fortes o suficiente pra fazer uma criança se questionar se aceita os termos e quer continuar ou se tem umas crises de choro – que é só o que dá pra fazer de qualquer maneira -. Além da existência que nossa sociedade propõe para classe operária, peguei o bônus de existência como mulher, herdei os genes indígenas e vim ao mundo sapatão. O mundo definitivamente não parecia que ia ser bom pra mim, tava claro desde sempre que ser mulher era osso, eu já logo me rebelei chorando toda vez que colocavam um vestido ou sandália desconfortável em mim. As mulheres a minha volta além de exaustas, sem tempo, cuidando da casa, dos filhos, também trabalhavam, estudavam e ainda se colocavam em dietas e rituais tidos como femininos, travando incansavelmente uma luta contra a natureza de envelhecer ou de apenas se ser como se era. 

Qualquer criança vendo o quanto tornam as pessoas -principalmente as mulheres- descartáveis com a idade, poderia concluir que ao chegar aos 30, a única festa possível é a da derrota! O evento será um humilhante tributo ao fim eterno da sua juventude, aceitando que o tempo venceu a grande batalha e você agora se encontra na descida da ladeira em direção ao bico do corvo – Poxa, eu disse que ia ser um texto positivo sobre envelhecer… mas calma porque eu aprendi a fluir no texto assim como na vida, então provavelmente essa leitura vai ser ruim e no fim dela é possível que você até acabe achando que foi boa.

Cheguei aos trinta e não foi exatamente um momento deprimente, apesar das circunstâncias foi um sentimento de contentamento de estar viva e pronto, afinal estar bem é privilégio e não obrigação, diria até que: “Vamo se sentir bem mas sem perder a empatia!”. Isso significa obrigatoriamente que o jeito é ter muitos altos e baixos mas não se abalar por não se iludir. O que foi mais diferente entre minha expectativa e a realidade sobre envelhecer? Aparentemente as pessoas não envelhecem mais como antigamente! Exagero? De certa forma, mas faça um teste e compare pessoas de 30 nos anos 80 com pessoas de 30 hoje! Não vou perder tempo tentando explicar esse fenômeno, isso é trabalho para os testemunhas de darwin, mas algo me diz que o ser humano está seguindo a linha cachorro de evolução, quanto mais fofo e por mais tempo mantendo o olhar de ingênuo de “pidunxo”, maiores as chances de sobreviver. 

Podemos fazer vários recortes de classe aqui também, isso explicaria muita coisa sobre envelhecer, mas pessoalmente eu sou só uma cozinheira multifuncional, nunca rolou plástica, minha maior intervenção foi tirar uns dentes do siso e mesmo sem o apelo estético, isso já explicaria muita coisa. Eu também parei de fumar tem uns bons seis anos, parei de comer tanto industrializado, transgênico… não sei se isso é tudo, mas envelhecer num mundo com tecnologia e medicina avançada é sem dúvidas muito melhor que na época que escreveram a bíblia.

Sobre meu recorte de classe: apesar de carregar muita melancólica, eu não cresci no pior contexto possível, a gente era pobre, sem exagero, mas a gente ainda se considera privilegiado, leia-se: família embranquecida. No quesito “cachorro em evolução” eu sou o sem raça definida, famoso vira-latas que a gente só fica pensando “até que se deu bem”. Aliás, me chamem de petista, mas que coincidência, porque nossa pobreza que mencionei melhorou muito na época do Lula, viu? Se hoje eu sou no mínimo uma mulher lérbica empoderada, dá pra dizer que mesmo fazendo pouco, esse governo safado de esquerdopata permitiu o mínimo de inclusão que gerou a nossa deliciosa militância, lacração e cancela ou não cancelamento. O básico pra gente ter o que fazer na internet, sem isso provavelmente seria invés de 70% resistência, apenas 85% reaça e 100% desgraça.

Foi nesse meu contexto que eu cresci uma criança que não queria crescer, para uma adulta que pensa: “Que bom que eu posso envelhecer”. As mudanças no mundo com certeza ajudaram muito a melhorar a estima da gente que sobrevive ano após ano, porque ainda é verdade: Ter 30 é literalmente ladeira abaixo!

Só que ladeira abaixo todo santo ajuda, então isso é um ponto positivo! Depois de tantos anos, finalmente vem chegando com o pacote de atualização, uma aceitação de que seu aparelho está ficando obsoleto e tentar manter atualizado vai torná-lo inútil. – Eu não sou aquela pessoa que vai te fazer ver o lado positivo de tudo, pelo menos não antes de falarmos umas verdades sobre o quanto ta ruim, principalmente no meio da pandemia enquanto o sistema colapsa. Eu sei que tá ruim demais, sei que não sabemos se dá pra consertar a merda que fizeram antes da gente e acho que já temos certeza que não vamos deixar um mundo tão melhor quanto o que recebemos, pelo menos não materialmente, já que nunca a destruição foi tão acelerada… Mas depois de tanta consciência de estarmos vivendo o caos, tem um click na cabeça: – O que vier é lucro!

Com certeza muitas pessoas sentem essa sensação antes dos trinta, mas aos trinta ela se consolida. Não é que envelhecer significa “desistir”, mas significa que as frustrações ou param de te definir ou você vai ser uma pessoa velha muito amargurada e chegar aos trinta é saber exatamente pra qual lado você está inclinando, porque eu sinceramente não recrimino ninguém amargurado, a pancada da vida as vezes é pesada mesmo. Não é fácil admirar os eventos milagrosos, encantadores e misteriosos que colocaram a gente nessa gincana de nascer, crescer, se tornar bem sucedido -seja lá o que isso signifique pra você- e morrer. Mas todas aquelas pessoas que você conheceu e foram felizes, brincaram numa roda de samba, fizeram algo bom para outrem: Elas também foram felizes apesar de tantos pesares e sim, apesar de serem pessoas lindas e resilientes, elas são os exemplos mais difíceis a serem seguidos.

Aos trinta colecionamos momentos o suficiente pra agradecer, saber onde focar melhor nossas revoltas, processamos muitos traumas, temos uma noção melhor do pra onde vamos levar isso que chamamos de vida e mesmo depois de muita escola, faculdade, estágios mal ou não remunerados, empregos bosta… também  chegamos aos 30 sem emprego, na pior crise dos tempos, assistindo ou participando de atos anti racistas, vendo uma confusão generalizada sobre o que pode e não pode mais dizer, ser, pensar, debater. Quantas pessoas de 30 eu conheço que estão a beira de um colapso? Praticamente todas! Acho que nossos pais provavelmente resolviam essas paradas comprando coisas, mas nós já temos lixo o suficiente pra nos dar ao luxo de tentar preencher nosso vazio existencial com compras. 

Para os adultos que avisaram meu eu adolescente revoltado que um dia eu ia entender, me sinto compelida a avisar que nossa geração já está se acostumando com o “Não tá tudo bem, talvez nem fique, mas vamo indo”.

É possível que aos trinta você ainda esteja alienado da situação? Sim, mas se você não for a pessoa em crise existencial preocupada em deixar o mundo razoavelmente menos pior, provavelmente você não está lendo isso e sim procurando sobre investimento na bolsa ou qualquer coisa que te faça ganhar mais dinheiro, afinal: Já que o mundo vai acabar, melhor você ser um dos bilionários que vai fugir pra lua na nave do Elon Musk! 

E como remediar? Talvez Nossa sociedade só melhore se acabar. Ano após ano as elites dão um jeito de explorar e se mantendo dominando as classes trabalhadoras, dominando principalmente o pensamento. As pessoas se munem de soberba, auto ajuda e outras formas de manipulação para enganar e manter também cleros espirituais/religiosos de poder e pra todos os efeitos não temos mais noção de onde retomar o fio da meada para a sanidade. 

Aqui percebo pelo menos um terço da expectativa de vida que eu poderia ter, reduzidos pelas incertezas do: “Será que eu vou poder pagar pra viver?”. O momento crucial do nosso sistema sendo construído sob meus olhos e sem aposentadoria ou perspectiva, a ansiedade vai perdendo a importância na medida que recordamos nas histórias que estamos fadados a fazer o que tem que ser feito, se o instinto chamar, iremos a luta e arriscaremos o tudo (que já pode ter chegado a nada). Se a hora chegar a gente vai saber, isso deve ser o mais próximo do hakuna matata que consegui realizar da minha infância pra cá.

Dicas de bem viver? O método de defesa que eu escolhi pra sobreviver tantos anos sem danificar meu cérebro foi tentar não perder tempo com ressentimentos lançando um bom foda-se. É real, nunca vamos agradar a todos, mas tente agradar umas cinco pessoas pelo menos, isso é importante caso você também queira envelhecer. Pedir desculpas também tem se tornado um ato mais simples pra mim, porque tenho me lembrado de maneira mais recorrente que sou humana, estou passível de erros, então não é nada de muito absurdo no percurso ser levada à exaustão, dar uma surtada e precisar me desculpar pelo vacilo. Com trinta tá mais fácil lançar um sorry a la Justin Bieber e seguir o jogo, aliás, também já foi liberado envelhecer e apreciar o que a juventude tem aprontado.

O trinta é uma etapa de mediação entre as gerações, um meio termo entre “tô velha demais pra essa merda” e “nova demais pra estar tão velha”, ou seja: Hoje tenho em mim a sensação da valorização plena das pessoas mais velhas que eu, porque fica evidente que não é só por sorte que se sobrevive, tem uma porção de talento e como disse Emicida: Exu! Tem também a valorização plena da juventude, porque a gente cria uma esperança de eles consigam fazer mais que a gente tá fazendo. Eu tenho uma irmã de dez anos e a prova que eu não tenho nem noção do que vai rolar com eles é que ela falou “a namorada da minha irmã” pros amigos e não rolou nenhum segundo de choque, zero! Eu sou lésbica tem trinta anos e permaneço mais chocada que eles.

Por outro lado, parte da minha geração pegou o b.o de diminuir o impacto da nossa existência no planeta, e é com a sabedoria dos mais velhos que entendemos que ir pra trás nem sempre significa retroceder. Agroecologia, bem viver indígena, alternativas naturais biodegradáveis, tudo que nossa ancestralidade guardou no museu da novidade é aquilo que a gente tem que ir atrás, seguir a onda desse povo raiz! 

Se você é só um mortal, envelhecendo sem ser digital influencer ou qualquer coisa que pareça importante: Tá tudo bem, de verdade! Eu sei o quanto é foda ver gente que você sabe que é escrota se dando bem por oportunismo, e eles sabem disso também, só têm mais estômago pra bancar o que é necessário pra chegar lá. Lembra que a gente vê estátua dos caras mais errados e estuda eles na escola? Ser famoso é zero importante pra se realizar, pode desapegar sem erro, mas uma coisa sobre ter trinta é real: A gente encara oficialmente que devemos preparar o terreno e plantar, porque se a gente não bancar essa função, as próximas gerações não vão ter nada!

E é nesse caminho que vou percebendo que envelhecer só é ruim para quem se apega demais. O caminho é pra frente e às vezes o pra frente é pra trás, o velho parece novo, o novo vem carregado do antigo e assim vai. Pra envelhecer bem tem que incorporar bem o papel, saber jogar esse joguinho e não se frustrar com a ilusão da brincadeira.

Não tem certo e errado, só aquele bom monte de consequências. 

Nessa onda de renovação aos trinta, aliviar minha onda e não pirar nas idéias, eu resolvi fazer um ritual de faxina para receber esse espírito triunfante de três décadas que vos escreve, literalmente, fiquei uns três dias limpando a casa e enquanto esfregava o chão, o chão me esfregava. Limpar aquele canto que eu andei negligenciando durante a pandemia foi uma metáfora pra limpar da minha vida coisas que definitivamente não iam caber na jornada pós vinte e poucos. Ali cheguei a conclusão adulta com a qual encerro esse textão: Faxinar pode ter sido a meditação ativa das mulheres por muitos séculos, por isso nossas mães sempre foram essas mulheres sábias, afinal é impossível não ter consciência de si e do outro quando é você que limpa a sujeira de todo mundo! Veja que mesmo conscientes, as mães nunca deixaram de ser revoltadas, porque é essencial ao alcançar a iluminação que a prole também seja iluminada da compreensão de que é inaceitável se tornar um ser humano folgado e egoísta que não lava a louça ou não arruma a própria bagunça. Então  fica aqui meu obrigada para todas as pessoas que cumpriram esse papel de mães em nossas vidas e que não nos deixarem ser assim tão inúteis e vulneráveis na vida adulta. 

Espero que tenham ficado reflexões positivas, afinal envelhecer deveria ser assim naturalmente complexo e nostálgico. Foi bom ter sua companhia nessa leitura, assim espero que tenhamos próximas, até mais! 

Nathali Urbano ak ig @bruxonaprendiz

Por favor, lembre-se de compartilhar trechos ou textos completos do blog sempre com os devidos créditos!

O PLANTIO NO JARDIM É LIVRE! SOMOS UM BLOG ABERTO. PARTICIPE!

A Vida é Viva – Encontrando Inspiração no Mundano

“Não pergunte o que o mundo precisa. Pergunte o que faz você ganhar vida e o faça, porque o que o mundo precisa é de pessoas que estão vivas. ” ~ Howard Thurman Continuar lendo “A Vida é Viva – Encontrando Inspiração no Mundano”