Não tem como ser Anticapitalista sozinho

O nosso erro começa, pois, na pós-modernidade não existe uma identidade revolucionária, com os vários caminhos e as várias faces da esquerda atual. Frequentemente eu vejo posts super-radicais que apenas fragmentam e dividem a “turma” entre radicais e pelegos, e vira uma disputa contínua que se retroalimenta e não agrega em nada, essa falta de semântica entre reformistas e revolucionários nos faz perder muito tempo e não focarmos no que realmente tem que ser feito. Como todo sistema cria as suas próprias anomalias, o Capitalismo não está imune a essa condição, pois ele mesmo cria os “Anticapitalistas”. E eu percebo um estreitamento, uma pressão cada vez maior na população principalmente se tratando do nosso cenário brasileiro, existe um acirramento, porque percebo que está em curso uma “desmocratização” liberal, ou seja, muitos dos direitos que resguardam o individuo perante o
coletivo que foi conquistado com muito suor e sangue, estão sendo retirados, pasmem, por vias democráticas.

E tem muita gente que sente os efeitos disso mesmo que de forma subjetiva, muito em conta de uma crise econômica de certa maneira fabricada, mas que faz parte das crises cíclicas inerentes a esse sistema, que foram agravadas com essa pandemia;
Por exemplo: a política que rola há pelo menos a cinco anos por aqui de forma contundente. Mas o que observo é que temos uma taxa de mobilização em nossa sociedade relativamente baixa, em momentos e locais específicos a gente vê pessoas se juntarem, quando existe uma tragédia, como agora mesmo diante dessa pandemia ou no caso da esquerda quando a Marielle foi assassinada, mais recentemente quando houve a movimentação pela Educação e Pesquisas e as queimadas na Amazônia; Mas da pra ver que vivemos isso em ciclos, vamos às ruas depois voltamos, voltamos às ruas depois recuamos, e isso vai gerando uma frustração muito grande pra quem vai e adere a essas pautas, porque a gente fica naquela duvida se ao final daquele movimento, daquele dia vai haver um resultado concreto, até que ponto essas pautas e demandas serão atendidos?  Isso vai nos frustrando drasticamente.

Eu por exemplo em minha adolescência aderi a todos os movimentos de “Não ao aumento das tarifas de transporte”, desde que o José Serra era prefeito isso em 2005 e subsequentemente até 2013 e de lá pra cá, apanhei de PM e tudo mais e a tarifa só aumentou! E todo esse movimento ainda serviu de estopim para a derrubada da Dilma em 2016, quer frustração maior que essa (risos). Tudo isso faz a gente pensar o porque eu vou pra rua, o porque vou aderir a A ou B se não vejo efeito concreto diante disso; A não ser uma disputa de narrativas posteriores e ilações a certa disso ou daquilo.
O que eu quero expor aqui é o seguinte, nós temos que pensar seriamente o quesito ORGANIZAÇÃO, que é necessário a gente compreender que é o anticapitalismo pra ele ter um efeito mais perene num projeto de sociedade e poder, ele tem que ser de “ponta a ponta” do “anti ao pró”, ou seja, o anticapitalismo surge da observação e entendimento das tensões e exploração inerentes a esse sistema QUE NÃO FUNCIONA. Mais o que a gente quer por no lugar? E uma vez isso definido surge o principal, como chegaremos lá JUNTOS? Por quais vias? Essa é a pergunta chave!

Creio que não tem como a gente se contentar em falar de anticapitalismo sem desdobrarmos quais são as experiências que já ocorreram no campo pessoal e histórico, o que a gente quer aproveitar delas e o que a gente quer deixar no passado, e o que temos que  construir, porque temos desafios novos também, porque eu vejo que a esquerda atual tem o duplo desafio em apagar incêndios momentâneos e as mentiras proferidas pela direita, e ao mesmo, ter tempo para dialogar suas visões e expor as coisas de forma mais racional. O que se torna um trabalho muito cansativo, em apontar uma mentira e mostrar o porque aquilo é uma mentira. Então, fica nítido o despendimento energético da galera mais acadêmica que se baseia em ciência e observação das ciências principalmente as humanas, ou ciência como um todo em tempos de terraplanismo intelectual e pós-verdades.

Eu vejo muito a galera do Eco socialismo, que é uma pauta realmente atual tendo dificuldades tremendas no seu campo de atuação, tentando fazer a galera compreender mais sobre metabolismo ecológico, os limites materiais do nosso planeta em fornecer insumos e matérias-primas, porque mudança climática é um tema recente e pra ONTEM. E como reunir as diversas pautas e fragmentações entorno desse projeto de sociedade, e isso faz com que a gente tenha que pensar quais serão nossas táticas e estratégias muito, mais muito cuidadosamente. Mas ao mesmo tempo temos uma boa parte da população que está quase em outro plano, por conta da despolitização, ou, por conta das necessidades materiais inerentes a cada ser humano de sobrevivência mesmo, visto que 30% da população do Brasil vive em extrema pobreza, e eu queria discorrer um pouco sobre isso aqui, que um dos maiores males que vejo na galera de esquerda é essa, de que todo mundo é bolsominion, é alienado e isso e aquilo, porque o que podemos notar é que apesar de haver uma falsa polarização politica na sociedade e uma fragmentação dentro da esquerda e direita, inclusive a direita se mostrando bem fragmentada no momento, a partir disso a gente observa que tem disputas politicas ocorrendo em todo o mundo. O nosso papel como anticapitalistas é dar um sentido a tudo isso, e o que nós vemos é que as pessoas num geral em nossa sociedade, elas tem a nítida noção que elas estão sendo EXPLORADAS, mas elas não sabem por quem, perderam o foco de quem é o “Rei”, não tem pertencimento de classe. Nisso, o inimigo se torna algo vago, como Eu mesmo, o Diabo, os Iluminatti, os comunistas, o presidente, etc. Hoje em dia até mesmo os direitistas Olavistas se acham os revolucionários, sim, eles acham que estão “revolucionando”, o século XXI realmente produziu aberrações intelectuais!

Retomemos o foco, nós temos noção do que é a exploração, o que é o suor o cansaço, o correr atrás do próprio rabo, o boleto que venceu, vender o almoço pra ter a janta. O que é a luta pelo direito a cidade, qualquer um que more em uma grande cidade sabe, lutar pelo espaço o publico, enfim. Essas pessoas, elas tem noção do que é a desigualdade e a exploração também; O que a gente precisa trabalhar é esse deslocamento sobre o entendimento do que é a exploração e desigualdade, porque elas não precisam ler Marx, elas sentem isso na pele empiricamente, e temos que deslocar isso para uma ciência de classe, de pertencimento a um determinado espaço e grupo, sem muitos florismos intelectuais, pois o que falta entender é que se você é explorado então você é classe trabalhadora, não você não é um “parceiro”, sócio, empresário um empreendedor em potencial, você é um explorado. Existe uma tendência hoje em dia em romantizar quem “trabalha duro”. “Não eu trabalhei muito, muito duro, tive várias profissões e isso me dá aval a ter qualquer aspiração”; Quando isso na verdade é muito ruim, e só serve para se achar distante de quem não se “esforçou” realmente, quando na verdade você pertence à mesma classe de EXPLORADO, ou seja, CLASSE TRABALHADORA. Vejo que temos que realmente usar o nosso tempo para dar esse sentido às pessoas de que estamos no mesmo barco, independente de identitarismos toscos ou ideológicos, ou se você tem casa própria ou mora num barraco, todos somos TRABALHADORES EXPLORADOS, por um sistema que já esta feito e independe de atores, ou seja, se tirar a pessoa não muda nada!

Existe a PL 5491/2019 do Clauber Braga, que hoje em dia parece absurda, que faz distinção entre emprego e tempo de lazer, e direito a um emprego digno, porque como dito a cima existe uma glamorização de que existe bastante exploração eu trabalho muito e uma hora o jogo vai virar, e essa concepção é puramente ideológica que impede que as pessoas tenham uma noção direta da sua compreensão como classe, então eu diria que não há uma alienação direta como dizem por ai, de que o empreendedorismo subiu a cabeça ou algo do tipo, quando na verdade é a necessidade material que faz com que as pessoas busquem ferramentas e caminhos disponíveis dentro da sua ótica de mundo. É isso que quero deixar claro, as pessoas
entendem, ou melhor, sentem na sua própria pele a sua condição de explorado, o que lhes faltam é justamente essa condição situacional de pertencimento de classe, para que assim elas possam extravasar essa condição de forma mais focada e com propósito. O que a gente precisa
trabalhar um pouquinho é que tipo de significado, que ponte de significado a gente tá criando entre nós, quais são as linguagens que a gente usa para interpretar nossa realidade e fomentar vínculos entre nós? Eu digo, nós porque eu também sou militante e também sou classe trabalhadora, os meus ao meu redor também o são, só que temos muita gente em condição
precária que não tem nem tempo para dormir uma hora a mais, quanto mais tempo para militar ou se aprofundar em um determinado assunto. Esses são os desafios para a esquerda que esta organizada em meio a tanta fragmentação, estar trabalhando nessa questão de linguagem o que alguns chamam de “Campo Semântico”; Semântica tem haver com significado, que tipo de significado comum nós conseguimos estabelecer com todas as pessoas, e essas situações que a gente esta hoje em dia de calamidade e desumanização continua, faz com que, quando a gente pensa em resistir existe o medo da opressão.

Principalmente quem esta no Campo, seja movimentos como o MST ou os indígenas, nas cidades os movimentos como o MTST e associação de moradores de comunidades carentes, essas pessoas já sentem diretamente essa opressão, não precisa de muito para ver quantas lideranças do Campo já foram mortas, mais recentemente no Maranhão e um caso emblemático urbano o que aconteceu com a Marielle Franco. Ai quando a gente pensa, à
vamos reunir um monte de gente para fazer alguma coisa, esse medo da repressão triplica, porque as pessoas já sentem isso no seu dia a dia de forma velada e subjetiva. Porque a democracia nesses espaços já é falha e muitas vezes nem chegaram por lá. Única maneira que vejo da gente recobrar essa confiança é através da solidariedade, é estando fisicamente presente, preencher essas lacunas deixadas pela anomalia sistêmica, é mostrando serviço, e não teorizando no “chão” das universidades e espaços de classe média pseudo intelectual, é quase um jargão um mantra a gente ter que ficar batendo na mesma tecla de que a esquerda tem que voltar a fazer o trabalho de BASE, mais o que significa fazer esse trabalho de base, não pode ser interpretado como “há, daqui dois meses tem eleição tenho
que botar a cara”, tem uma fala muito interessante da Ester Solano que diz: “muita gente se voltou para igreja evangélica, não é porque já tinha um fervor muito grande em Jesus, porque na hora que o negócio apertou eram eles que estavam lá…”; Outra pesquisadora a Gabriele Nascimento fala nessa mesma linha, muito interessante porem doloroso para nós da esquerda assumir, é que: “Quando teve o massacre no presidio em Altamira, quem esta lá para auxiliar as mães e esposas do lado de fora? A igreja Universal e Católica, dando comida e suporte as famílias”. Então onde a gente está nesses momentos mais cruéis? Quando tem as chacinas nas
periferias, onde a esquerda esta? Lacrando na internet? Onde nós estamos no dia à dia, na militância para que essas coisas nem aconteçam?
Esse é o ponto, onde construímos essa ponte semântica revolucionária, é estar presente no quotidiano de coisas que nem sequer viram noticia de jornal. É ai que a gente vai construindo um movimento onde se entender como explorado passa a virar um entendimento de CLASSE EXPLORADA!

Eu não estou sozinho, eu não me sinto sozinho, tem outros aqui comigo lado a lado, isso que dá sentido de grupo a nós humano, inclusive isso é o que nos torna HUMANOS, estamos passando por situações similares, eu tenho com quem contar, e a partir do momento que eu tenho com quem contar automaticamente eu tenho como me ORGANIZAR, Onde esta a sua radicalidade? E nesse momento que as pessoas têm medo da repressão, a resistência ela se dá através desses espaços que passam meio despercebidos pelos aparatos de repressão, espaços como hortas comunitárias, como economia solidária, creches comunitárias, espaços onde a gente se dá a mão e tem a possibilidade de sentir a necessidade do outro, e isso é extremamente poderoso, mais não dá “lacração”, não dá muita curtida, não parece interessante aos olhos de quem acha que o sistema vai cair através das armas, da radicalidade, nós temos muito trabalho antes de chegar em um momento chave como esse, ai eu tenho que descordar dos meu camaradas que acreditam que a revolução já esta ocorrendo, a revolução ainda não esta acontecendo, quem dera, porque a revolução não tem mais essa cara de estar falando de revolução, a revolução acontece no momento em que nós começarmos a chacoalhar as bases, não no sentido de acabar com a desigualdade, mais sim destruir o SISTEMA CAPITALISTA, nunca poderemos desviar da nossa pauta mestra, nós não viemos amenizar as dores do sistema, que isso não funciona, por isso a organização é necessária, junte-se aos espaços nos quais as necessidades são concretas, e eu sei que cada pessoas que ler isso trabalha e rala todo santo dia e sabe de suas necessidades, elas criam pontes para as necessidades das pessoas ao seu redor, e a partir disso a gente vai conseguir conversar um com o outro, e criar laços de confiança e solidariedade que estão tão fragmentados em nossa sociedade hoje, que estão em uma situação de anomia e que a partir disso a gente vai chegar naquele ponto tão almejado de combinar as “revoluções” e finalmente derrubar esse sistema.

Ai eu quero finalizar sobre essa questão importante: NÃO TEM COMO SER ANTICAPITALISTA
SOZINHO.
PAZ.

Luccas Fortuna Gonçalves
10/04/2020

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As Quatro Perguntas: um inquérito sobre a responsabilidade pessoal

“Você pode ter muitas idéias maravilhosas em sua cabeça, mas o que faz a diferença é a ação. Sem ação sobre uma idéia, não haverá manifestação, nem resultados, nem recompensa. ” ~ Miguel Ruiz Continuar lendo “As Quatro Perguntas: um inquérito sobre a responsabilidade pessoal”

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