A Não Violência – Do Ahinsa até a Desobediência Civil

Ahinsa é um termo Sânscrito (अहिंसा, ahimsâ, “não injúria”) que defende a não-violência. É usado no hinduísmo, jainismo e budismo, e sua primeira aparição data das escrituras hindus do ano 800 aC. C. Ahimsâ pode significar não-violência ativa e passiva, isto é, ahimsâ não é prejudicial em pensamento, palavra ou ação.

Ao longo do tempo, os rituais e o conceito de ainsa foram sendo continuamente refinados e enfatizados, até que, no período védico tardio (por volta de 500 a.C.), o ainsa se tornou a virtude máxima. Por exemploː o hino 10.22.13 do Rigveda usa as palavras Satya (verdade) e Ahimsâ numa oração ao deus Indra. Mais tarde, o Yajurveda, datado de 1000 a 600 a.C., dizː “possa todo ser me olhar com olhos benévolos, possa eu fazer o mesmo, e que ambos possamos nos olhar com os olhos de amigo.”

O Chāndogya Upaniṣad, datado do século VIII ou VII a.C., um dos mais antigos Upanixades, tem a mais antiga evidência do termo Ahimsa no sentido comum do hinduísmo (como um código de conduta). Ele proíbe a violência contra “todas as criaturas” (Sarvabhuta), e o praticante de ainsa é tido como capaz de escapar ao ciclo das metempsicoses (CU 8.15.1). Alguns estudiosos acreditam que o conceito tenha sido uma concessão do hinduísmo védico à crescente influência do jainismo.

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O Chāndogya Upaniṣad nomeia o ahimsa, junto com o Satyavacanam (verdade), Arjavam (sinceridade), Danam (caridade) e Tapo (penitência/meditação), como as cinco virtudes essenciais (CU 3.17.4). Ahimsa também está relacionado ao respeito por todas as culturas, à natureza, ao espírito e a levar uma vida em paz com todos os seres e com a Mãe Terra. O conceito de Ahimsa representa a congruência entre palavras e ações quando se trata de dar amor ao mundo e estar em harmonia com o meio ambiente.

Este conceito é frequentemente associado com Gandhi na atualidade, que introduziu esta filosofia no Ocidente, que viria a ser retomada por pensadores como John Rawls e Martin Luther King para discutir manifestações pacíficas e protestos rejeitando a violência, uma ideia que hoje continua a ser fundamental em várias manifestações que são feitos contra a injustiça. Esse conceito também foi adotado em disciplinas como ioga e meditação, ou no estudo do comportamento, para se referir a uma comunicação não violenta que é empática e honesta. A ideia de Ahimsa é geralmente identificada com uma roda de palma simbolizando o voto jainista de ahimsa e representando o Chakra do Dharma: reencarnação através da paz e da não-violência. Portanto, em várias filosofias, a ideia de ahimsa é destinada a evitar o mau karma.

A Não Violência segundo Gandhi

Mahatma Gandhi foi o líder do movimento de independência da Índia. Nasceu em 1869 e morreu vítima de um atentado em 1948. Tornou-se o símbolo da satyagraha, forma de protesto marcada pela não-violência, que inspirou tantos outros líderes e movimentos pacifistas. Gandhi formou-se em direito na Inglaterra e viveu seus primeiros anos de formado na África do Sul, onde adquiriu sua consciência social, em grande parte devido à segregação social vigente naquele país. O conceito de não-violência de Gandhi parte do princípio de que devesse odiar o pecado, não o pecador. É possível atacar um sistema injusto sem agredir, e até mesmo amar as pessoas nele envolvidas.

Gandhi entende que a violência não nasce de um ato físico, mas é cultivada a partir de toda a agressividade enraizada no ser humano, o que podemos pensar na chamada herança cultural ou transferência mimética proposta por Richard Dawkins no seu bestseller “O Gene Egoísta (1976)”. Pensamentos, palavras e atitudes egoístas ou motivadas pelo ódio, inveja e vingança são o alimento que nutre a violência tal como é conhecida. A proposta do líder indiano é abdicar de tudo isso para esgotar qualquer resquício de violência interna do ser, atingindo um patamar genuíno de paz, harmonia, compaixão e amor. Pode parecer uma proposta impossível de ser cumprida por um ser humano, e talvez realmente a satyagraha não possa ser praticada em sua plenitude por seres humanos comuns, vivendo na sociedade atual pós-moderna.

Mais importante do que resultados concretos imediatos, no entanto, é a essência da não-violência: a de que cada pessoa tem uma violência intrínseca à qual pode renunciar ou, pelo menos, controlar, em prol de um amor profundo a toda a espécie humana. É justamente essa busca que interessa aqui: ainda que de forma imperfeita, com uma série de tropeços no caminho, devemos assumir a não-violência como um ideal a ser seguido e um princípio a ser adotado em todas as nossas relações humanas.

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A Não-Violência no seu dia-dia

Hoje podemos aplicar a ideologia de ahimsa em nosso ambiente como um todo seja nos nossos relacionamentos e principalmente conosco. A não-violência requer empatia e paciência, grandes presentes para o espírito moderno. Além disso, não-violência exige que as pessoas não causam dor emocional ou física a outros seres, para que nós possamos nos relacionar de maneira saudável com os outros, evitando conflitos desnecessários através da empatia e erradicar todas as formas de violência ou ofensa, seja por palavra, pensamento ou ação. Praticar Ahimsa é evoluir espiritualmente, mentalmente e socialmente.

E para isso ter um fundamento você deve procurar parar de ser violento com sigo, nas suas cobranças e auto avaliações, de transmitir muitas vezes a forma e tom agressivo que trazemos de broncas que levávamos de nossos pais e criadores na infância, muitas vezes aquela voz interna chata e violenta é uma memória profunda de broncas e cobranças que recebemos na infância e adolescência. Então busque praticar a gentileza com você mesmo, seja amoroso, afetuoso, e saiba lidar com suas próprias diferenças internas, para que assim transborde para fora, não adianta muitas vezes limparmos o copo por fora, é mais necessário e eficaz limpa-lo por dentro onde será colocado o liquido. Quando você sessar essa violência interna será muito mais simples e espontâneo a prática da não-violência.

O Conceito de Não Violência nos Dias de Hoje

O conceito de não-violência está ligado às estratégias de desobediência civil como forma de luta contra leis consideradas ofensivas e humilhantes. O princípio básico é o reforço da noção de cidadania através do direito dos cidadãos de rejeitar leis injustas sem que seja adotada a utilização de violência.

Essa forma de resistência pacífica aparece no texto de Henry Thoreau (EUA) com título final de “Desobediência Civil (1849), onde afirma a ideia de que para se fazer oposição a um governo com o qual não concordava a população poderia utilizar a estratégia de desobedecer às leis ao invés de fazer uso da violência física. Mas, antes de Thoreau, existiram outros que, através de teorias próprias, mas acessórias a outras teses principais, também realizaram atos de desobediência civil, como faz Antígona, na peça grega de Sófocles. O pioneiro desse pensamento na modernidade, apesar de pouco conhecido, é Etienne de La Boétie (1530-1563), que em seu livro Discurso da Servidão Voluntária, diz que não é preciso se rebelar contra o tirano, bastaria apenas parar de obedecê-lo. “Não faça nada contra si mesmo.”

Uma forma de não apoiar ao governo seria, por exemplo, o não pagamento de impostos, ou até mesmo não sair para trabalhar ou não pagar a tarifa do transporte público quando há aumento. Como ocorreu na Turquia em junho de 2013 na praça Taksim, em Istambul que houve um protesto silencioso já que lá era proibido juntar pessoas e protestar por qualquer coisa, ou as mulheres na Arábia Saudita que não podem dirigir e no mesmo ano fizeram uma caravana pelas ruas da capital, como nesse ano de 2018 no dia internacional da mulher onde as Sauditas fizeram uma simples caminhada em silencio, esses são atos de Desobediência Civil atuais, nesse tempo de propagação mimética da violência espalhada aos quatros cantos das mídias sociais e massivas diariamente, o simples ato de ficar imóvel ou não corresponder a uma lei simples como o pagamento de impostos pode gerar muito mais frutos do que um quebra-quebra generalizado pelas ruas da cidade, o que seria esperado pelas autoridades e só influenciaria a degradação de qualquer movimento legitimo e seria tudo o que as autoridades querem, para assim ficarmos presos na roda da violência injustificada e o sistema seguir se perpetuando. Os métodos pacifistas continuam orientando a prática de diversas organizações, muitas delas em defesa da ecologia. Para que as exigências de seus direitos sejam cumpridas, é muito importante que opinião pública esteja convencida de que a luta é justa e manifeste apoio.

Vemos como uma prática ancestral de comportamento de não agressão vai se estendendo e se ramificando através do tempo e culturas, um ordenamento dentro da filosofia Hindu que foi o berço para que eles se tornassem vegetarianos tem influencias do Ahimsa e a ligação que isso tem com os tempos de hoje seja no Veganismo ou em práticas políticas e sociais de se manifestar. E o mais importante que isso tem que começar dentro de nós mesmo e vai se estendendo para o todo, seja através da nossa ação e modos, indo para os demais humanos até chegarmos aos demais seres, sejam eles animais ou plantas e isso ir se ramificando até chegar a Terra como todo, como um ser um organismo que assim como você não merece ser agredido ou violentado. Sabemos que isso não é um caminho fácil, e requer vigilância e prática constante até que se alcance uma espontaneidade e se torne o normal para você, busque ser sutil na maneira de falar e lidar com o próximo esse é o primeiro passo para o ahimsa. Então concluo esse texto com esse trecho do Mahabharata que enfatiza a importância capital do ahimsa, significando, literalmenteː

“O ainsa é a mais alta virtude,

 O ainsa é o mais alto autocontrole,

 O ainsa é o maior presente,

O ainsa é o melhor sofrimento,

 O ainsa é o mais alto sacrifício,

 O ainsa é a melhor força,

 O ainsa é o maior amigo,

O ainsa é a melhor felicidade,

 O ainsa é a verdade mais elevada,

 O ainsa é o melhor ensinamento”

~*~

Estudo inspirador! Que possamos ser antes de tudo, uma alma tocando a outra, amando e respeitando toda a vida que nos circunda. Ahoow!

Artigo de Luccas Fortuna para O Grande Jardim.

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Bibliografia:
Boétie, Etienne de. Discurso da Servidão Voluntária; tradução de Casemiro Linarth. São Paulo: Martin Claret, 2009. p.
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CHAPPLE, C. Nonviolence to animals, earth and self in Asian Traditions. State University of New York Press. 1993
História: volume único / Ronaldo Vainfas… [et al.]. – São Paulo: Saraiva, 2010.
Tempos moderno, tempos de sociologia: ensino médio: volume único/ Helena Bomeny…[et al.]. – 4.ed. – São Paulo:
Editora do Brasil, 2016; Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2016. (Série Brasil: ensino médio).
TÄHTINEN, U. Non-violence as an Ethical Principle, Turun Yliopisto. Finlândia. PhD Thesis, 1964. p. 2-3-23–25.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ainsa.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jainismo.
Imagem: Marc Riboud – La Fille à la Fleur – (21 octobre 1967)

Outros textos do autor:

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Sobre YanRam

Capricorniana, com a cabeça nas nuvens e o pés na terra. Parte do mistério do Multiverso. Eterna aprendiz.

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