Paridade do Ser – “Animismo ou Correntes de Pensamento de Povos Antigos” (1919)

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Hoje iniciamos uma série de estudos de Xamanismo, e a primeira semente a ser plantada aqui no Jardim é a tradução do quinto capítulo do livro, “Animismo ou Correntes de Pensamento de Povos Antigos”, escrito por George William Gilmore em 1919, intitulado: “Parity Of Being/Paridade do Ser”, que explora a base da percepção perante a vida pelos povos antigos, tribais, indígenas e ancestrais.

Animismo (do latim animus, “alma, vida”) é a visão de mundo em que entidades não humanas (animais, plantas, objetos inanimados ou fenômenos) possuem uma essência espiritual.

O Animismo

Se a alma humana pode residir em objetos, por que os objetos em si não possuiriam espíritos próprios? A evidente convicção dos povos antigos quanto à existência, a forma e a substância da alma humana é, muitas vezes, difícil de compreender. Mas estaria essa a percepção de que tudo possui um espírito limitado aos povos antigos? Esses povos consideraram outros seres tão dotados de alma quanto nós? A definição de Animismo por si só já traz a resposta afirmativa, mas nós devemos olhar mais profundamente para tal percepção. Há um Epigrama do Panteísmo Cristão que declara, “Deus dorme na pedra, sonha na planta, acorda no animal e é autoconsciente no homem”.

Isso expressa, em certo nível, como o homem primitivo pensava sobre si mesmo, apesar da frase objetivar a ideia de sonhar ou dormir como sensações sensíveis do mundo não-humano. Mas o homem, sem dúvidas, tornou a si mesmo a medida de todas as coisas, portanto, ele percebe que qualquer objeto na natureza deve ter sido concebido pela dualidade primitiva ou selvagem, como ele próprio, cujo o corpo é visível e tangível, e a alma, como a sua, invisível, exceto para si mesmo ou para o xamã habilidoso.  Para os Índios Omaha, há a afirmação de que todas as formas representam onde Wakonda parou e os trouxe à existência. “Homem… se torna literalmente parte da natureza, conectada à ela fisicamente e relacionada à ela psiquicamente”. O dom dos animais muitas vezes, é transferido aos homens, e Wakonda os auxilia respondendo às suas preces ao enviar o animal que possui a energia adequada para o fim desejado. Isso explica, em partes, o “Totem Animal” encontrado em praticamente todas culturas xamanicas. Outra confirmação deste fato é:

“A qualidade da mente primitiva, que talvez, mais profundamente ilumine nosso estudo, é o nebuloso senso de personalidade, que nos mostra a dificuldade que temos de experimentar o “eu” não distante/separado de outros “eu”; em outras palavras, a ausência do dualismo. Isso é constantemente mostrado nos Mitos da Criação, na noção primitiva de parentesco e relacionamento, na crença selvagem quase universal da metamorfose, na identificação do “eu” com nome, sombra, sonho, semelhança, roupa e outras propriedades. . . . E a crença generalizada, de possuir espíritos bons ou maus”.

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Muitas civilizações avançadas possuem uma completa percepção animista. Exemplos disso são encontradas nas Filosofias e Religiões da Índia. “Uma vez, em uma conversa com um Brahman ortodoxo em Kashmir, descobri que ele reconhecia que tudo na natureza, mesmo a vara à pedra, da lâmina ao vidro, possuem seus próprios espíritos”. É maravilhoso que o homem dote com vida, alma e poder os grandes objetos da natureza, como os corpos celestes, por exemplo. Mas nem podemos imaginar que tais objetos, como um vulcão com sua manifestação de força misteriosa, uma cordilheira que parece se vestir em nuvens e lançar a avalanche, o mar, com seus variados estados de espírito e mistério, que afeta até mesmo o experiente viajante, o rio com seu fluxo incessante e suas devastações ocasionais, a floresta com seu poder de silêncio sob o sussurro do vento, invoquem percepções de personalidade terríveis. Só essas coisas bastam para sugerir que o homem primitivo se sentiu sempre na presença do mistério. Poucos objetos, porém, parecem possuir individualmente suas próprias bases para suscitar a admiração ou medo.

É necessário investigar um pouco mais minuciosamente na deriva dos pensamentos do homem primitivo sobre as coisas que ele viu, sentiu ou imaginou. E, ao fazê-lo, devemos lembrar que três caminhos estão abertos para avançar nesse inquérito. O primeiro, é o caminho do culto, onde atos de devoção ou oferenda (sacrifício) indicam indubitavelmente a crença nas capacidades sensíveis e potentes do objeto cultuado. É óbvio que mesmo os mais ingênuos dos homens, muitas vezes não dá a devida atenção a este tipo de objetos que são concebidos para “serem” sem as qualidades de vida, sensação, emoção e poder. O segundo caminho é através do folclore e da mitologia. Para alguns, isso pode parecer trivial e indigno de atenção. No entanto, estes são “os depósitos sedimentares das tradições de épocas remotamente distantes”. Assim como os jogos infantis e os festivais na época da colheita são baseados em práticas que, uma vez foram realmente sérias, de modo que as histórias populares, como uma mosca na âmbar ou um fóssil na rocha, são as indicações de vida, em alguns casos,muito antigas. Em outros casos, representam o pensamento que ainda persiste, e isso seria muito claro de perceber se soubéssemos onde olhar. As histórias de homens e mulheres transformados em animais, voluntariamente ou involuntariamente, de gatos ou lebres que se revelam as formas que as bruxas assumem para fins maliciosos, nos parecem tolos; Os contos de lobos, contados ainda mais em partes da Europa, parecem educados, impossíveis e meramente cômicos. No entanto, veremos que os Africanos acreditam plenamente neles, e às vezes associam a personalidade humana com características animais, como aquele que tem memória de um “elefante” ou um homem rápido como um “leopardo”.

O terceiro caminho é o de crenças, ainda presente entre os antigos comparativamente ou completamente não afetadas pelas civilizações mais recentes. Mesmo na Índia, que tem estado em contato com a cultura do Ocidente, as antigas crenças permanecem, muitas vezes em resistência passiva mas efetiva às ideias mais esclarecidas, enquanto na África e entre os indígenas das Américas, da Austrália e Oceania o pensamento nativo continua, às vezes pouco adulterado, por conta da relação que é reivindicada por um clã ou tribo que possui conhecimento sobre algum gênero de vida vegetal ou animal.

OBJETOS INANIMADOS NA NATUREZA POSSUEM ESPÍRITO

Parece supérfluo citar exemplos em que a crença que existe universalmente de que o Sol, os planetas e as estrelas são seres vivos que possuem espíritos. Mas, o momento em que o objeto passa a ser associado à uma divindade, como um ser que habita, governa ou que tem como sua esfera de controle especial um desses objetos celestiais, registra uma cultura avançada, e então o animismo puro cede lugar à um modo mais elevado de pensamento e à uma percepção mais verdadeira de fatos. Mas, uma vez que esses objetos foram considerados como seres vivos, se tornam também poesia, mito, folclore e canção. Entre os antigos povos oceânicos, o Sol é como um homem, mas possui energia assustadora. Em seus mitos, ele possui diversas pernas e vários outros membros em excesso. Digna de especial atenção nesta conexão é a concepção da Terra como a Grande Mãe, um mito histórico na Babilônia, Ásia Menor e na Grécia, onde influenciou de maneira especial as práticas e os rituais. Sobre os Sumérios, Sr. Langdon diz:

“A vida nutritiva da terra, aquecida pela luz do Sol e refrescada pelas chuvas, forneceu aos sumérios pré-históricos seu primeiro Deus. E essa divindade que promoveu toda a vida foi concebida como Mãe, autogerada, sem gênero, produzindo animais e a vida vegetal como uma Virgem. Mas, os povos primitivos não pensam em termos abstratos, nem produzem idéias como princípios abstratos. Eles conceberam a deusa da Terra sob a forma de vida com a qual eles possuíam mais familiaridade, que no caso desse povo é representada pela Videira, a planta que para eles manifesta mais eficientemente o poder da grande mãe. Por isso, eles chamaram essa deusa “Mãe Videira”, ou simplesmente ‘Deusa Videira'”.

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Na Nigéria, a terra (o solo) está presente em muitos tabus, e à ele são oferecidos sacrifícios de muitos tipos. O sentimento entre os povos que falam Igbo muito se parece, se não for o mesmo, do que estava presente na Grécia e na Ásia Menor antes da personalização da Grande Mãe. No outro extremo, o Céu é considerado Pai, embora no mito Egípcio, que fala da separação da Terra e do Céu (um mito que se caracteriza pela sua difusão ou que é indígena em muitas regiões), com curiosidade de forma adumbrante a teoria da origem evolutiva dos mundos e aparecendo na Gênisis, os respectivos gêneros da Terra e do Céu são revertidos. Mas tal fé não se limita aos objetos celestiais e à Terra. As coisas terrestres, tangíveis ou intangíveis, possuem cada um seu próprio espírito e vida. Os ventos, raios, montanhas e florestas são seres conscientes. Muitos mitos africanos dizem, “O vento fala com a floresta e a floresta com o vento. O tornado é, muitas vezes, apenas uma discussão entre a montanha e a floresta, e o através dos raios e ventos, os humanos podemos ser atingidos e virarem pedaços”. Os índios Pima pensam no vento e na nuvem da chuva (Rain-Man) como pessoas sobrenaturais que uma vez fizeram serviram aos mortais, enquanto o Trovão também possui personalidade, ele é o fogo e aquele que encontra o ladrão do fogo (os elementos essenciais da história de Prometeu estão aqui); e as noções dos Omahas são bastante semelhantes. Os Uriankhai da Mongólia idolatravam as montanhas, rios e vento.  Os Zúvus consideram que seus “fazedores de chuva” operavam nas nuvens enquanto os Gregos pensavam em Zeus, o coletor de nuvens, e as nuvens e os raios são seres conscientes, vivos e cheios de poder, embora controlados apenas pelos curandeiros. O mar é considerado da mesma maneira. Hartland cita o caso dos antigos celtas relatados por Ælian, apoiados em substância por evidências nativas da tradição celta, que costumavam encontrar no mar transbordante a inspiração para criar suas espadas e lanças ameaçadoras, replicando em terra em batalhas, aquilo que observavam no mar.

Entre os povos Malaios e algumas tribos da África, é bastante comum os nativos da costa ocidental oferecem oferendas ao mar, a fim de induzi-lo a permitir-lhes uma navegação tranquila. Na sabedoria popular, essa ideia se transforma mais tarde na mitologia dos kelpies, os seres que habitam as águas; mas estudantes de folclores não duvidam que, na forma original, o mar fosse considerado possuidor de personalidade completa, que na cultura Grega é chamado de Poseidon. Também pode parecer supérfluo citar os rios, que também são seres possuidores de alma e personalidade, já que abundam histórias clássicas. No entanto, é útil salientar que tais idéias não se limitam à literatura da Grécia. Por exemplo, a estória africana de um viajante que estava adentrando um rio em uma canoa e foi persuadido pelos habitantes locais a voltar atrás porque uma nuvem apareceu sobre o córrego, e eles supuseram que foi causada pelo rio em desagrado pela profanação de suas águas por um estranho. Em outros mitos, o rio é mostrado como um espírito vivo, para o qual as oferendas devem ser feitas para que não haja qualquer calamidade ao atravessá-lo. “A sobrevivência na poesia do pensamento de um rio como pessoa pode ser ilustrada através do Ramayana, onde um rio se torna a esposa de um rei (xv. 20:13), ou se apaixona e tem um filho (xiii. 2 : 18). O Ganges é uma filha e uma deusa, se torna uma esposa e tem um filho. Os egípcios pensavam no Nilo como um pequeno homem feio com seios de uma grande mulher, simbolizando a fertilidade que o rio trouxe para a terra. Em Nova Guiné, os rios são invocados através de pessoas para realização de oferendas aos Mafulu. Na Mongólia, os rios são deuses. O fogo é visto como pessoa, com atributos correspondentes e que podem ser facilmente encontradas em referências ao ensinamento védico e brahmânico a respeito de Agni, cujo nome reaparece no latim como fogo de Ignis. O povo Kai da Nova Guiné Alemã afirma deliberadamente que tudo possui alma. Ao estudar os antecedentes do Zoroastro, encontra-se também a noção da extrema santidade do fogo, e isso também é visto nas concepções Aryo-indianas. Da mesma forma, os Malabares afirmam que uma chama possui vida e espírito e temem o fantasma de uma chama que de repente foi apagada.

ALINHAMENTO MEGALÍTICO

A evidência de crença na vida e no poder, mesmo de divindades como as rochas e pedras é muito abundante para ser citada em qualquer extensão. Na esfera semítica, William Robertson Smith ofereceu provas irrefutáveis de culto a tais objetos – adoração, sendo evidência de crença na posse de atributos equivalentes a alma e espírito por meio de devoção. Uma das curiosidades da história são as pedras de Carnac na França e de Rollright na Inglaterra em que elas são alguns dos Alinhamentos Megalíticos mais famosos do tempo Neolítico, como também Stonehenge. Os africanos afirmam que uma grande pedra perto de uma aldeia patrulha protege os arredores daquele povo contra o perigo. Uma grande rocha na região africana povoada pelos Bagandas é considerada sagrada e é um objeto de adoração, e acredita-se ser um meteorito. A pedra de Nimm, é considerada uma deusa Etoi, e isso é, sem dúvida, uma evolução na percepção desde a sua concepção como dotado de vida até ser possuidora de alma, personalidade e divindade. Na Mongólia, as pedras estão entre os objetos de culto. Na Melanésia, pedras de muitas espécies recebem oferendas, e são consideradas como casas de espíritos ou como possuidores desses. Nas Ilhas Salomão, espíritos também são associados às pedras. Nas Novas Hébridas, grandes rochas são especialmente sagradas. Em Banks Islanders considera certas pedras cumpridas como tão vivas que podem extrair a alma de um homem se sua sombra cair sobre elas. Na Ilha da Flórida, qualquer pedra de forma peculiar pode ter a vida e a alma atribuídas a ele. Em muitos desses casos, a percepção  dos homens às pedras, mostram uma espécie de santidade, que, no entanto, é uma maneira de pensar mais desenvolvida comparado ao pensamento mais antigo e mais grosseiro de que há vida presente no ser, mas não necessariamente uma personificação. Tanto que isso também é visto perto de Laguna, no Novo México, onde sete rochas irregulares são consideradas as prisões de sete espíritos. A pedra do pavilhão de suor dos índios Omaha é considerada antropopática. O caso do meteorito de Baganda citado acima é apenas uma das muitas instâncias de tipos de veneração. As pedras da Caaba imediatamente nos ocorrem à mente. Pode-se recordar os casos muito numerosos da Grécia antiga – a pedra sagrada em Delfos – pois as pedras para os Gregos, representam o umbigo do mundo. Em Aneityum, na Melanésia, se pensava que as pedras eram semelhantes aos objetos de desejo e recebiam adoração de várias tipos de classes de pessoas. Como por exemplo, a pedra que se parecia um peixe era venerado pelos pescadores. Para catalogar aqui os vários objetos na natureza que possuem vida&alma atribuídas à eles exigiriam muito espaço, portanto apenas mencionaremos. O arco-íris é muito importante na vida na Austrália, habitando poços profundos nas montanhas; É visto apenas quando está indo de um desses poços para outro. A mesma percepção é vista também na África. Entre os Baganda da África, a água da chuva é um totem (ou seja, um antepassado ou um aliado). Para os Árabes, a resina ou cola a partir da qual o incenso é derivado é considerada como o sangue de uma árvore, cuja alma é uma divindade, e a coleta da resina é feita em cerimônias especiais. Os Tshemsheans do Alasca sentem o espírito devocional desperto, como na presença de um ser sobrenatural que manifesta através de precipícios, maremotos ou qualquer objeto ou fenômeno que seja estranho/incomum para eles.

 O ESPÍRITO EM ARTEFATOS

Os objetos que eram o produto do próprio homem, ou seja, criado por ele mesmo artesanalmente, cuja gênese e produção total e modo de uso que ele conhecia, possuem alma e também recebem a energia do seu criador. Tais instrumentos, como os de caça e os que são usados na agricultura são dotados de vida e poder, e são reverenciados pelo homem. Na Índia, há um Festival que dura três dias em Outubro, onde os Hindus de todas as castas (incluindo os brâmanes), em que se é cultuado todos os tipos de ferramentas e utensílios. Em muitos casos, festas do tipo ainda ocorrem por sobrevivência do costume; em muitos outros, no entanto, o elemento original de culto, a atribuição de vida ou de aspecto divino ainda é inerente. Não é muito difícil de compreender a razão pela qual a mente dos povos antigos sentia o mundo de tal maneira. Pois, se ao mexer meramente na terra e depositar uma semente já produz algo tão generoso, como poderia ser diferente ao se criar qualquer outra coisa? O que o homem moderno realmente conhece da química da natureza? Não foi o espírito da enxada que também fez o presente da colheita? Por que não seria também a enxada, o arrasto ou a rede igualmente animados? Não é tão surpreendente assim que na Índia e em outros lugares, que fogo fosse um objeto de devoção e concebido para ser adorado. Os antigos costumavam evocar o espírito do fogo até mesmo nos mais remotos lugares, inclusive onde aparentemente, não havia chances de haver fogo, ele simplesmente era chamado a Ser. Ao compreender como os antigos pensam, fica mais fácil compreender como tal fenômeno poderia vir a ocorrer, já que sua relação com o Todo era muito mais intensa e ampla. Também encontramos a mesma linha de pensamento em Fiji no Japão, onde, além das pedras, casas e canoas, ferramentas de vários tipos são creditadas com almas imortais, e até mesmo algo tão isolado e insignificante como o dente de uma baleia também é creditado possuidor de vida e imortalidade; e há um mito onde acredita-se que aquele morre e é enterrado com o dente de baleia junto a si, se torna um espírito que repousa na árvore que dali nasce, e o espírito do dente reencarna como árvore.

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Não menos curioso é o fato de que alimentos e similares foram e ainda são considerados animados e possuidores de espírito. Os antigos Egípcios, por exemplo, alimentavam o Ka (a alma) dos falecidos com alimentos, bebidas e roupas, afim de que o espírito não sofresse por fome, sede ou frio. Pois o Ka, sendo etéreo, não utiliza as coisas em si, mas apenas as partes delas que estão na mesma relação, ou seja, a alma de tais objetos. De modo em que há uma concepção maravilhosamente semelhante à do espírito ou da alma atribuída aos comida, bebidas e vestimentas. Em estágios anteriores da civilização egípcia, as oferendas dadas ao falecido tinham eram muitas vezes “quebradas/mutiladas” e era comum a oferenda de pessoas, como escravos e esposas que eram enviados através dos portões da morte para servir o seu senhor morto, assim como também eram ofertados armas, ornamentos e todo tipo de objeto que fosse considerado importante para aquele que se foi. Na Nigéria, os santuários funerários são os fragmentos de pertences familiares, que foram quebrados para que suas formas astrais possam ser liberadas para serem levadas pela sombra do dono para o seu lar espiritual. Em perfeita concordância com essa tendência de pensamento, os Dyaks de Bornéu enterram com o corpo vários utensílios e afirmam que estes possuem espíritos e que o falecido leva consigo à sua nova casa e os usa. Nos túmulos da África Central encontram-se cestas com diversos objetos quebrados, como panelas que foram perfuradas, copos trincados etc pois ao quebrar o objeto, este também “morre” e podem ir em espírito se manifestar no plano espiritual. Da mesma forma, os Bacongos dotam garrafas, panos, guarda-chuvas e artigos semelhantes com vida e espírito. Na África acredita-se que as qualidades pessoais podem ser transmitidas aos tecidos e ornamentos, de acordo com os melanésios da Nova Guiné, suas almas evaporam pelo fogo e são oferecidas aos demônios da doença que operaram pela extração da alma humana da sua morada.Os Kai da Nova Guiné Alemã oferendam comida e mantimentos aos espíritos de seus mortos, que consideradamente comem apenas a alma e deixam a substância para aqueles que a oferecem. Em algumas passagens do Antigo Testamento aparece a concepção de que mesmo as partes do corpo poderiam possuir vida e poderes individuais. Testemunhe a expressão “El (Deus) da minha mão” (Gn 31:29; Deut. 28:32; Miqueias 2: 1; Provérbios 3:27; Ne. 5: 5). Uma concepção tão abstrata como esta também é encontrada entre os povos que falam Igbo, que, aliás, percebem os rios entre os grandes poderes que eles nomeiam como Alusi.

 A ALMA OU ESPÍRITO NO MUNDO VEGETAL

Se as coisas que facilmente consideramos inanimadas como as que acabamos de ver são consideradas como possuidoras os atributos da vida e do espírito, não é de se admirar que o mundo vegetal possua as mesmas qualidades. Em muitos mitos e folclores, as plantas possuem o poder de engravidar seres humanos, sendo dito que a folha e a flor de certos tipos específicos de plantas, ao caírem sobre uma mulher, levam-na a gerar uma criança. Na Melanésia, as Cicadáceas e as Casuarinas são consideradas plantas sagradas, e no folclore, a Cicadáceas se torna uma donzela. Acredita-se que as crianças também surgiram de árvores, frutas e outros vegetais. Na Austrália, acredita-se que os cones do Casuarina possuem um espírito que quando se liberta, ataca os olhos dos espectadores e causam a cegueira – como se o desprendimento de sua alma fosse uma ardente fumaça. As árvores têm almas, sentem dor e até conversam, e isso não se limita às árvores maiores, estendendo-se a plantas, arbustos e ao reino vegetal como um todo. É sabido que alguns humanos possuem o conhecimento da linguagem vegetal.

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A fertilização das árvores pode ser considerada como o resultado do desejo e da ação voluntária. Os Malaialas acreditam implicitamente nas almas das árvores e consideram apropriado realizar oferendas. A árvore como oráculo na Grécia antiga e em outros lugares é um fato bem conhecido – cf. o carvalho sagrado em Dodona, cujo caráter é evidência permanente de crença em sua divindade, e isso, nos tempos antigos, incluiu a ideia de vida e alma inteligentes. Existem evidências em abundância da atribuição dessas posses às plantas e uma delas, são os fenômenos do Totemismo, sendo a ideia de ser descendente ou possuir aliança com algumas espécies de plantas particulares, cujo o tratamento sempre foi respeitoso e, assim, concedidos às tribos ou clãs. Citando apenas algumas, além de muitas outras disponíveis, plantas como feijão, cogumelo e inhame estão presentes em muitos totens do povo Baganda. Entre os povos que falam Igbo, as árvores conhecidas como Ojuku e Ngu pertencem aos poderes conhecidos como Alusi, e são consideradas tão parecidas com o homem que acredita-se que no processo de reencarnação, podem vir a animar corpos humanos. Desdas Ilhas Britânicas em toda a Europa até a Ásia, a evidência desse culto é abundante e ficaram ainda mais nítidas nas escavações que levaram à luz as antigas civilizações Micênica e Mediterrânea. Esse tipo de adoração é tão comum na Índia que pode ser vista a partir de suas diversas esculturas presentes em sua cultura. Entre os Mafulu de Nova Guiné, o inhame é considerado possuidor de personalidade e de um coração amoroso. Para o xamã, a floresta representa uma vida coletiva e individual que tem muito a ensinar. Cada planta possui personalidade própria e características especiais que podem ser compartilhadas com os homens que sabem ouvi-las e aprender com elas, pois na floresta existem todas as curas para os males da alma e do corpo de todos os seres.

A ALMA OU ESPÍRITO NOS ANIMAIS

Se o princípio da “paridade do ser” envolve a concepção de vida e alma em objetos inanimados e no mundo vegetal, portanto com muita razão compreende-se que os animais também sejam dotados, com as mesmas qualidades. Aqui, novamente, nenhuma análise exaustiva e coleção de fatos serão apresentados de tão extensa que é a evidência. O que será oferecido mostrará simplesmente o alcance da ideia e a integridade com a qual ela é realizada. Em todas as fábulas africanas, os vários animais são seres humanos disfarçados. Mesmo as formas menos complexas da vida animal, como a estrela do mar – além de seu simbolismo místico – são consideradas como possuidores ou como sendo espíritos. Assim, na região do Rio Murray da Austrália, uma enorme estrela do mar é um espírito à habitar águas profundas. Já os animais como leões, leopardos, crocodilos, ovelhas, répteis e outros são considerados espíritos que se tornam perigosos após a morte e que se deve se proteger deles. Os Ainus tratam o urso como um deus  e quando é morto em caçada, é oferecido uma parte de sua própria carne como oferenda.

Muitos outros povos em diferentes lugares do mundo – índios americanos, malaios e assim por diante, honram animal que é caçado, através de tentativas de convencê-lo ou enganá-lo, assim como eles tentariam persuadir ou enganar um de sua própria espécie, para que seu espírito ou seus parentes de sangue não se vingassem de seu abate. Os Malaios tem o costume de gritar com os tigre que eles caçaram, dizem que “Mohammed colocou a armadilha”, de modo a despistar seu espírito para que não se vingue deles. Entre os Dyaks, o crocodilo quando pego é abordado com elogios e é seduzido, e assim não oferece resistência. Embora o animal seja tratado em termos tão lisonjeiros antes de estar imóvel, o momento em que ele se torna impotente para realizar qualquer tentativa de defesa, eles o ridicularizam por sua estupidez. O tratamento deles com ursos e tigres é bem parecido. Poucos fatos podem demonstrar de forma mais enfática a paridade completa dos animais com o homem, tal como concebido por várias raças, e é notável de que muitas características existentes nas espécies animais são também observáveis nos homens, tanto que muitas vezes são relacionado a nós em arquétipo e muitas vezes, se tornam nossos parentes, famílias e as sociedades e governos se vem obrigados a realizar adoração aos mesmos. O exemplo extremo do que Andrew Lang chamou de “percepção pensamento” é observado, nos casos em que o homem se considera como uma mistura ou algum tipo de totem genético, ou, por outro lado, considera todos os seres como ele mesmo. Esta curiosa operação da mente pode ser mais ilustrada por outros dois exemplos. Os isleiros de Mabuiag dizem sobre a mistura genética: “o homem é o mesmo que sua relação com o Todo, e todos pertencem a mesma família”. Não me resta nenhuma indagação sobre a percepção dos índios ao ver em uma tartaruga, coelho ou ouriço a encarnação de um de seus antepassados, ou que um clã de totem pode traçar origens de volta ao planeta ou ao sol, ao pássaro, mamífero ou réptil. A paridade completa de diferentes estados de existência está aqui em evidência e implícita sempre,  e explícita a maior parte do tempo.

Outros testemunhos são fornecidos pelos povos antigos que sustentam que os animais, os pássaros e similares entendem o discurso humano, têm linguagens próprias, conversam, realizam as operações da razão, se envolvem no comércio, estão sujeitos a paixões, usam a persuasão, enganam, usam truques uns sobre os outros e sobre os seres humanos, planejam a dor ou a morte de outros e realizam muitas outras ações humanas. Os melanésios atribuem à serpente e ao cachorro o poder do discurso articulado; e os africanos da região do Níger não estão sozinhos na compreensão sobre o papagaio, e há mitos em que um falcão possui uma árvore como esposa. Estes casos são curiosamente encontrados entre os índios Pima, onde o cachorro costumava ter o poder de falar e uma águia assume a forma de uma velha que apreendeu e levou uma garota como esposa. Uma personagem lendária também se torna uma cobra, e outra chamada Tonto bebe “remédio” e se torna uma águia. O folclore da Índia é rico neste tipo de conto. Animais, liderados pelo chacal – raposa no ocidente -, não apenas conversam e vivem tramas profundas, mas são mostrados de todos os modos, como seres humanos. E o mesmo é verdade para os pássaros. É claro que não é estranho que o papagaio fale, mas outros pássaros são tão bem dotados quanto ele, muitos são inclusive capazes de curar uns aos outros. Os elefantes selvagens são adorados pelos Kadirs da Índia. Acredita-se que os cachorros, porcos e outros animais domésticos dos mortos em Tubetube, Nova Guiana britânica, têm espíritos e se encontram com seus donos na terra espiritual.

~~*~~

Ahooo! O Animismo foi a primeira “religião” ou melhor, percepção do homem perante a este plano divino, à ele mesmo e a tudo que o circundava! O perceber o divino interno, percebe-se no externo. Ao perceber em mim, percebo em você. ❤ Gratidão Internet e suas Bibliotecas Sagradas! NÓS SOMOS UM.

Texto do Capítulo V do livro “Animismo ou Correntes de Pensamento de Povos Antigos”, escrito por George William Gilmore em 1919, intitulado: “Parity Of Being/Paridade do Ser”. Traduzido por YanRam para O Grande Jardim.

Por favor, lembre-se de compartilhar trechos ou textos completos do blog sempre com os devidos créditos!

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3 comentários em “Paridade do Ser – “Animismo ou Correntes de Pensamento de Povos Antigos” (1919)”

  1. Eu lhe agradeço YanRam. São excelentes suas publicações. Mergulho nelas com carinho e gratidão pela oportunidade de melhor me localizar e me conectar com as maravilhas deste mundo de Deus. Grata.

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