Livro “Estórias do Vovô Pajé”

vovô pajé

Olá, jardineiros!

Há algum tempo adquiri um livro muito rico em lendas indígenas chamado “Estórias do Vovô Pajé” e encontrei muita sabedoria em cada uma dessas estórias e hoje compartilharei algumas delas com vocês! Espero que apreciem e possam aprender com elas ❤

Esse livro foi escrito em 1943 por Emil de Castro e publicado em 1973 pela editora Livros do Mundo Inteiro em Convênio com o Instituto Nacional do Livro – Ministério da Educação e Cultura.

O Roubo do Fogo

vovô pajé 2

Antigamente não havia o fogo. Parintintins secavam a comida ao sol. Mas um dia, Bahira, chefe dos Parintintins, resolveu ir ao mato fazer uma experiência, para ver se achava o fogo. Dito e feito, deitou-se, cobriu-se de cupim e fingiu que estava morto. Apareceu uma mosca varejeira, viu aquele corpo morto, e correu a avisar o urubu, que para onde ia levava o fogo debaixo da asa. Não havia jeito de fazê-lo dar o fogo a quem quer que seja. Ele era o dono exclusivo do fogo.

Recebendo o aviso da mosca, o urubu desceu do céu, seguido dos companheiros, da mulher e dos filhos. Encostou os pés no chão, virou gente. Bahira está quieto só observando. O urubu preparou o moquém, pôs o fogo embaixo e pediu aos filhos que o vigiassem. Os filhos viram quando Bahira boliu um pouquinho e disseram logo ao pai. O urubu não acreditou, disse para os meninos irem matando as varejeiras com as suas flechinhas. Quando o fogo, debaixo do moquém, estava bem aceso, Bahira se levantou, num relance, e o roubou, fugindo.

Bahira escondeu-se no ôco dum pau. O urubu e sua turma entraram atrás dele, mas Bahira saiu pelo outro lado e atravessou um tabocal cerrado. O urubu não pôde chegar. Bahira chegou à margem dum rio muito largo. Dali enxergou sua gente do outro lado, uma multidão, à espera do fogo, e ele sem saber como levaria o fogo tirado do sol. Chamou a cobra-surradeira, pôs o fogo nas costas dela, mandou-a levá-lo para a sua gente. Surradeira azulou numa corrida formidável. Num segundo estava no meio do rio, daí não passou. O fogo torrou-a. Bahira com uma vara de ponta de gancho, recuperou o fogo. Tornou a colocá-lo noutras cobras. Elas iam até o meio do rio, mas não suportavam o calor e morriam queimadas.

Camarão foi até o meio do rio, morreu queimado. Caranguejo foi até o meio do rio, morreu queimado. Saracura foi até o meio do rio, morreu queimada. Então Bahira pegou o sapo Cururu. Ele saiu aos pulos, e aos pulos chegou até o outro lado, onde os Parintintins o puxaram com uma vara carregando o fogo para a maloca. Bahira ficou do outro lado, pensando como atravessaria o rio. No entanto, ele era um grande pajé, foi estreitando o rio, estreitando, deu um pulo por cima das águas e foi para a casa. Sapo Cururu virou pajé. E a partir daquele dia, os Parintintins puderam assar peixes no moquém.

~*~

Tahina-Can, de Olhos Dourados

vovô pajé 1

Naquele tempo, os carajás não sabiam fazer roça, nem plantar milho, nem mandioca, nem ananás, nada. Colhiam as frutas na árvore, como se apanha amoras, trepando no pé. E, manhãmanhãzinha, quando o dia soltava a luz desfazendo as brumas da noite, metiam-se no mato para caçar e pescar. Nesta terra tinha um casal, com duas filhas: Imaherô, de olhos dourados, a mais velha, e Denakê, de olhos baços, a mais nova. Um dia, Imaherô, de olhos dourados, ficou pensativa olhando o céu cintilante com milhares de estrelas, e viu Tahina-Can, a estrela Vésper, duma beleza triste e suave. Dominada pelo encanto sedutor do belo Tahina-Can, correu para falar ao pai:

— Pai, como é bonito aquilo!… Eu gostaria de ter ele para brincar comigo.

O pai riu-se do desejo de Imaherô e disse-lhe que Tahina-Can morava no infinito, tão longe que ninguém o poderia alcançar. Contudo, falou:

— Só se ele quiser vir, ao ouvir sua voz.

Tarde da noite, quando a casa estava em silêncio, Imaherô ouviu o rumor de alguém que se aproximava dela. Sobressaltada, perguntou ao vulto que entrava na escuridão:

— Quem está aí?

— Tahina-Can me chamo. Ouvi sua voz me chamando e aqui estou. Se me quer, case-se comigo.

A moça despertou os pais e acendeu o fogo. Quando a luz clareou o rosto de Tahina-Can, ela viu que ele era um velho, bem velhinho, de cabelos e barbas brancos, como algodão e pele toda enrugada. Imaherô, que o imaginara muito bonito, de pele acetinada e olhos dourados como os seus, ficou decepcionada:

— Não quero casar com você. Imaginei-o belo e jovem, forte como o brilho da estrela que vi no céu; mas você é feio e velho.

Vésper ficou muito triste e começou a chorar. Então, Denakê, de olhos baços, que tinha um coração bondoso, compadeceu-se do velhinho de barba e cabelos brancos e procurou consolá-lo, casando-se com ele. Depois do casamento, Tahina-Can falou com a mulher:

— Preciso trabalhar para sustentá-la, Denakê. Vou fazer uma roça para plantar os frutos que os carajás ainda não conhecem.

E lá foi ele para o Rio Araguaia. Falou com o rio, e dentro dele, ia mergulhando as mãos para apanhar as sementes que a água ia levando. Colheu semente de milho, raízes de mandioca, ananás, enfim, tudo quanto é espécie de plantação de roça. Na volta do rio, ele disse a Denakê que ia derrubar o mato, para iniciar o roçado, mas que ela devia ficar em casa esperando-o despreocupada. Assim falou:

— Denakê, vou derrubar mato para fazer roça. Mas você fica aqui no seu canto. Não vai me ver no trabalho. Prepare a comida para quando eu voltar cansado, de braços doloridos, você me matar a fome e o cansaço.

Tahina-Can saiu para o mato. Denakê ficou em casa esperando. Ajeitou tudo, preparou a comida, mas nada do marido voltar. A mulher, então, ficou muito preocupada com a demora dele, e temendo que ele tivesse caído exausto, de tanto trabalho, desobedeceu às suas recomendações, e foi procurá-lo. Mas que surpresa! Ah, que alegria Denakê teve, quando viu que quem estava trabalhando no roçado, era um moço belíssimo, alto, forte, com o corpo enfeitado e pinado como os jovens carajás. Louca de uma alegria incotida, ela correu a abraçá-lo e levou-o para casa feliz da vida por revelar aos seus pais a verdadeira imagem de Tahina-Can.

Imaherô, de olhos dourados, que tinha atraído Tahina-Can, a estrela Vésper, desejou-o novamente para si:

— Você é a luz que meus olhos desejaram. Para mim desceu do céu e não para Denakê. Agora eu o quero de volta.

Tahina-Can não se perturbou. Fitou seus olhos dourados nos olhos dourados de Imaherô e falou:

— Só a bondade atrai a beleza. Em Denakê encontrei bastante bondade, para ter pena do pobre velhinho, de pele enrugada e barba branca. Ela o aceitou, quando você o desprezou. Agora não a quero mais. Denakê já é minha.

Imaherô, de olhos dourados, de despeito e inveja, soltou um grito, caiu no chão e sumiu. No seu lugar sugriu um urutau, de penas vermelhas que soltou um grito melancólico, espaçado por um canto soturno, sonoro, fluindo pela mata adentro.

~*~

Joãozinho Solta a Noite

pajé 2

Houve um tempo, na terra do avô do meu avô, que não tinha noite. Não tinha quarto escuro, nem porão, nem bicho papão que quando a gente tá dormindo puxa o pé, nem morcego, nem coruja, nem cria-avô. Não havia animais de espécie nenhuma, e todas as coisas falavam. Era uma terra muito bacana. A gente ia passear no rio, na floresta, nas montanhas, sem medo de nada, porque naquela época não havia lobo mau. O sol brilhava o dia inteiro, mas não era como o nosso sol de verão. Bem diferente mesmo: era uma luz azulada cobrindo a terra como um manto transparente. O dia não tinha hora de começar, nem hora de acabar. Começava na horinha de acabar.

O tempo todo a gente passava passeando. Ia à toa pelo caminho florido, parava para conversar com as pedras, com a malva do campo, com um tronco de árvore, com a água do rio. A água do rio gostava muito de brincadeira. Ela ficava o tempo todo implicando com as pedrinhas do fundo do rio. Então a gente ficava ali naquela conversa até não querer mais. Às vezes apanhávamos umas pedrinhas do fundo do rio e levávamos para outro lugar, de tanto que elas pediam. Porém, no dia seguinte elas nos pediam para levá-las de volta, porque não se acostumavam com a vida fora d’água. Naquele tempo, Deus tinha arrumado as coisas de tal modo, que ninguém se chateava com a monotonia. Conta-se que a noite apareceu sobre a terra  por culpa dum indiozinho muito curioso. Vovô tinha ouvido falar que nas terras do outro lado do rio havia um homem que trazia a noite trancada num coco. Então ele foi lá e trouxe para a noite para atender um pedido da vovó que estava caducando com mais de duzentos anos. Colocou o coco bem fechado num canto do quarto, para contentar a velha.

Um dia, Joãozinho, o indiozinho, entrou no quarto e ouviu aquele zumbido esquisito saindo do canto do quarto. Era o barulho dos grilos e sapinhos que cantavam dentro da noite. O barulho crescia e diminuía; crescia e diminuía. Tinha hora que o som estranho se espalhava por toda a casa. Joãozinho estava ficando cada vez mais intrigado com o ruído. A curiosidade dele aumentando, aumentando, não aguentava mais de curiosidade. Bateu o coco no chão e a noite brotou do dia, densa e impenetrável, cheia de grilhos e sapinhos. Foi um desassossego. A noite se espalhou por todo o bosque, transformando as coisas em animais e pássaros. Uma gritaria imensa veio de todos os cantos, num mistura de cantos e vozes de animais. As coisas que estavam espalhadas pelo rio se transformaram em patos e peixes. Não havia onça, nasceu onça do paneiro. Não havia pato, nasceu pato do pescador e sua canoa.

Aí o avô separou a noite do dia.

Joãozinho não foi castigado, porque o avô gostou da noite separada do dia, mas obrigou o indiozinho a contar as estrelas do céu, coisa de que ele gostou muito, pois aprendeu as cores da luz.

~*~

Ahooo!! Viva nossa cultura raiz! Viva os povos indigenas e seus grandiosos ensinamentos! ❤

Espero que tenham gostado! Dessa vez só coloquei 3, mas se vocês quiserem posso compartilhar muitos outros 🙂

Diz aí, qual você mais gostou e por que?

Por YanRam / “Estórias do Vovô Pajé” – Livro de Emil de Castro e Ilustrações de Kenneth de Lanerolle

Por favor, lembre-se de compartilhar trechos ou textos completos do blog sempre com os devidos créditos!

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